quinta-feira, 24 de julho de 2014

O SEGURO

Ele foi direto pra sua casa depois do trabalho, como de costume. Abriu a porta devagar e entrou, fechando-a lentamente, como se o peso dela fosse muito maior que suas forças e motivos. Com o mundo trancado para o lado de fora, ele experimentou, como todos os dias, o silêncio e o vazio de sua casa e de sua vida. Apenas o eco respondia à sua pisada firme no piso de taco. Apenas a brisa que entrava pela janela fazia movimento dentro da casa. Rapidamente ele ligou a TV, a única voz “humana” além da dele próprio. Pronto, se sentia um pouco melhor. Agora precisava se arrumar. Tirar do armário uma roupa que o faria parecer menos desimportante.
Ele passava o dia isolado, trabalhando dentro de uma minúscula cabine, que funcionava como guichê da companhia ferroviária. Nos horários do café e do almoço ele continuava isolado, já que não tinha muito traquejo social, muito menos daquele tipo que a cidade grande exigia, e sua natureza arredia o rotulava ainda mais. A família agora se resumia apenas a rostos sorridentes em seus sonhos, distantes como estavam, espalhados pelos rincões do Brasil. Amigos do tipo que se compartilha emoções ele não tinha nenhum, ninguém que lhe provesse compreensão ou simples ouvidos a escutar-lhe os sonhos ou lamentos. E assim eram os seus dias já há quatro anos, quando chegou à grande cidade, vindo de um interior miserável e decadente. Dolorosamente ele tinha consciência de sua própria invisibilidade, de nada seu interessar a ninguém.
A solidão trazia-lhe ainda outra companheira inseparável: a morte. Não que morreria de solidão, mas aquele estado de espírito parecia atrair tal inquilino indesejável para dentro de sua mente, envenenando-a com raciocínios de perda e esquecimento. E a possibilidade da morte instantânea e violenta em qualquer veia podre daquela grande cidade era o toque final em um estado de espírito que já há anos se desintegrava em medo e solidão. Sendo assim, o seguro de vida, pago com os bicos que ele fazia aos finais de semana, o perpetuaria ao trazer um auxílio redentor à sua família quando o provável finalmente se manifestasse.
Chegou à seguradora e foi recebido com um sorriso radiante, um bom dia, e um vigoroso aperto de mão. Devolveu com um leve esgar desconfiado, o máximo que conseguia; não estava acostumado a sorrisos radiantes. Na maioria das vezes não se é recebido dessa maneira em bares e lojas de terceira categoria.
Tudo lhe foi perguntado. O questionário era enorme. Doenças, históricos familiares, cirurgias, tudo isso entremeado por uma conversa agradável sobre a vida, a família e o país. E sempre o sorriso radiante. Nem se lembrava da última vez que tinha recebido atenção daquele tipo, com aquela intensidade. Sem perceber, atravessou com inesperada ansiedade aquela porta, súbita e momentaneamente aberta no deserto imutável de sua vida invisível. Sentiu-se mais à vontade e timidamente começou a falar sobre a família, agora devolvendo o sorriso, sua própria voz conduzindo-o pelos inesquecíveis caminhos de suas mais ricas lembranças. Falou também sobre sua terra natal, percorrendo na imaginação cada centímetro de suas muitas léguas e suas muitas histórias. As palavras saíam-lhe aos borbotões e isso o surpreendia. Estranhava-se na frente de um estranho. Mas sentia-se bem: há quanto tempo não era abraçado por aquele orgulho, nascido de sua própria história? Uma leve e breve sensação de felicidade, forjada apenas no frágil tecido dos pensamentos, o fez ressurgir de seu limbo pessoal.
Terminada a entrevista e assinados os papéis ele foi embora. Sabia que a atenção que havia lhe sido dada funcionava dentro de um esquema de troca que não se relacionava sobremaneira com qualquer espécie de interesse genuíno. Sabia que não haveria tantos sorrisos e gentilezas se não fosse ele um cliente em potencial, porque era assim que as coisas funcionavam.
Mas também sabia, com uma certeza que o assombrava, que o fardo, aquele que o oprimia há quatro anos, havia diminuído.
O destino, senhor dos caminhos improváveis, o havia trazido gentilmente de volta ao grande palco da vida. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

EM CIMA DO MURO

Ficar em cima do muro é expressão geralmente usada para definir o comportamento de uma pessoa que: ou não sabe qual é sua própria opinião, ou, o que é mais freqüente, não tem coragem de assumir a sua própria opinião. Quem fica em cima do muro quer agradar aos dois lados, freqüentemente assumindo uma postura que o faz parecer sempre “adequado”, independentemente do ponto de vista de quem o observa. Não quer desagradar a ninguém. Não quer ser opor a nenhuma opinião. Quer servir a dois deuses, mesmo que antagônicos em suas doutrinas, e ser benquisto e abençoado por ambos. Quem fica em cima do muro muitas vezes abre mão de crenças e certezas que freqüentemente definem sua própria personalidade, “lavando suas mãos” enquanto se equilibra com destreza sobre sua estreita borda.
No entanto, velhos dizeres podem adquirir novos significados e uma abrangência inusitada nesses tempos modernos, quando a própria lógica das idéias que se defende é subvertida a todo instante, em uma constante redefinição de valores. O muro talvez não esteja mais tão bem definido como antes, um poleiro para os que temem em defender e assumir compromissos ideológicos em geral. Agora ele também funciona como uma espécie de porto seguro, o galho mais alto de uma árvore, onde uma pessoa consegue refúgio diante das opiniões reacionárias que atualmente permeiam as discussões polêmicas, de ambos os lados, principalmente nas redes sociais.
São duas as situações que podem instigar no cidadão o desejo de correr para cima do muro: ou nenhuma das opiniões vigentes o representa, ou aquela que o representa é colocada de uma maneira tão doutrinária e impositiva que o faz recuar em sua posição, em respeito ao seu próprio direito de escolha e decisão, ainda que ele próprio possa concordar com a opinião em sua essência. A forma de apresentar a idéia acaba contaminando o conteúdo que ela carrega, comprometendo até mesmo sua mensagem. Um discurso promovendo o respeito ao próximo, ou a paz, mas proferido em tom ditatorial e agressivo, acaba por afastá-lo de seu objetivo primordial e razão de ser.
Vou ser mais claro: se eu sou partidário de determinada opinião, eu não preciso que alguém me a imponha. O caminho que me fez chegar a ela foi de reflexão, e não de imposição. Ter alguém exigindo, com palavras de ordem, a minha adesão a uma idéia, fatalmente vai provocar um efeito contrário. Veja bem, a minha opinião sobre o assunto continuará a mesma, mas me retiro ascendentemente rumo ao muro porque não consigo dar razão a qualquer idéia apresentada dessa forma impositiva. Uma idéia assim apresentada não me representa, mesmo que eu concorde com ela. Principalmente nesse dias atuais, onde todo mundo parece se sentir orgulhoso de ser radical em suas opiniões, como se isso conferisse força e respeito à sua personalidade, e autenticidade às suas reivindicações.

Exemplo concreto: dias desses, em uma rede social, uma pessoa postou que, se alguém fosse contra a idéia que ele estava defendendo, então que avisasse porque ele iria excluí-la de seu grupo. Eu até concordava com a opinião por ele defendida, mas me senti bem incomodado com as coisas postas daquela maneira. E esse tipo de situação já aconteceu com mais de uma pessoa. E não parece que vai parar.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

É NÓIS NA EUROPA - ALEMANHA - FINAL


A última fase da nossa viagem começou com 5 horas de espera no aeroporto de Frankfurt, vindos de Praga e querendo chegar a Stuttgart (ou Estugarda, como dizem os portugueses). Quando finalmente chegamos, a Preta, prima da Jô, estava nos esperando no aeroporto junto com uma amiga também brasileira. Nos próximos dias conheceríamos ainda outros brasileiros de Stuttgart, nos jantares que as primas da Jô – Marcinha, Eliane e Preta – organizaram para nos reunir com seus amigos. As três já vivem a mais de uma década na Alemanha, e estão completamente adaptadas ao país, com marido, filhos, sogra, sogro, sobrinhos, etc.
Ficamos na casa da Marcinha, em Göppingen, uma pequena cidade a 20 minutos de carro de Stuttgart. Assim que chegamos, uma geladeira cheia de cerveja foi escancarada para que eu me servisse à vontade. Mais um vinho aqui e outro acolá e fui dormir um sono perfeito.
No dia seguinte, acordamos cedo para aproveitarmos bem o dia. A idéia era conhecer a região em um raio de 200 km ao redor de Göppingen, ao ritmo de uma cidade por dia. Como locomoção, a Marcinha gentilmente fez questão de emprestar seu carro. Conosco ia também o Fernando, irmão por afinidade das três, que estava por lá esperando sair o seu visto de trabalho. Sem perder tempo, saímos em direção à Heidelberg.
Como eu ainda conhecia pouco da dinâmica do trânsito nas estradas alemãs, pedi para o Fernando ir levando o carro naquele dia. Chegamos a Heidelberg em pouco mais de uma hora. Depois de caminhar alguns minutos por uma looooonga rua cercada de prédios históricos, chegamos finalmente à praça central da cidade. 
 A composição visual ali era como a de muitas pequenas cidades históricas da Europa: uma igreja antiga e muito bonita, as mesas dos restaurantes espalhadas pelas calçadas, e um chafariz secular dando o toque final. Mas se você olhar para cima, atrás do chafariz, verá , no alto de uma colina, a maior atração da cidade: o castelo
 Decidimos não usar o funicular e aproveitarmos para gastar mais algumas calorias subindo a colina. São mais de 300 degraus até a entrada do Castelo, passando por uma pequena floresta salpicada aqui e ali por fantásticos casarões de pedra. Á medida que se sobe a vista da cidade lá embaixo vai ficando cada vez mais impressionante. Há vários lugares pelo castelo de onde se tem fotos de cartão postal com a cidade antiga lá embaixo e a ponte secular sobre o rio Neckar.
 A área externa do Castelo é enorme, muito grande mesmo. E está tudo semi-destruído, devido a guerras com a França no séc. 17, quando os canhões dos navios franceses posicionados no rio Neckar atingiram suas torres e muros. Mas o acesso ao pátio interno é pago, e ao interior do castelo um pouco mais, mesmo porque havia uma guia. Decidimos conhecer tudo. Na bilheteria, fiz algumas perguntas em inglês à atendente, que de repente começou a falar em português comigo. Perguntei como ela sabia que eu era brasileiro, e ela me respondeu que brasileiro falando inglês tem um sotaque inconfundível.



 Entramos no grande pátio interno e realmente é muito bonito; a “colagem” arquitetônica, com toques de ruína, é fantástica. Um vídeo 360º faz você passar por todas as épocas arquitetônicas do castelo, em sequência.



 Então, uma pequena porta se abriu e fomos convocados para o tour dentro do castelo, que durou + ou – uma hora. A história interessante é que na idade média, naquela região, a água era muito impura e contaminada, e muitos consideravam mais seguro beber vinho. Sendo assim, a maior parte da água que a população consumia vinha do vinho ou da cerveja, mesmo para as crianças. Inclusive, no castelo há um barril de vinho que é considerado o maior do mundo (e que nós conhecemos depois). Bem legal também são as enormes urnas de cerâmica onde eram colocadas as brasas para aquecer os quartos.
 Saímos então para dar um rolê no entorno do castelo, que é gigantesco e com longos passeios arborizados. O fosso foi transformado em um enorme jardim e também dá pra descer até lá e caminhar dos fundos até a frente do castelo. No caminho vimos uma torre bem larga, enorme, que havia sido partida ao meio pelos canhões, como a casca de um ovo; um pedaço havia ficado de pé, o outro tombou sobre o fosso. 

 Depois fomos até a ponte, na cidade, e tiramos fotos do portal e do castelo visto de lá. Tinha ainda outras trilhas que podiam ser feitas do outro lado do rio, mas já estava tarde e ainda tínhamos que encontrar uma cervejaria tradicional para tomar umas brejas. Foi a nossa despedida de Heildelberg. 

 No dia seguinte partimos, dessa vez apenas eu e a Jô, em direção à Estrasburgo, 150 km de distância, na França. Iríamos passar dois dias lá e mais um dia em Worms, mais ao norte. Mas as coisas não foram bem assim. O carro quebrou na nossa mão e ficamos apenas quatro horas em Estrasburgo, que é bonita pra caramba. Os hotéis estavam lotados e onde havia quarto livre o preço estava fora do nosso orçamento. Bom, pelo menos conseguimos apreciar a Catedral de Estrasburgo, de longe a mais impressionante de toda a viagem.

 
Voltamos de trem para Stuttgart, e naquela noite dormimos na casa da Eliane, em uma região campestre e de certa altitude, onde neva primeiro quando o inverno chega à Alemanha.
O dia seguinte foi de descanso. Acordamos mais tarde e demos uma volta na pitoresca cidadezinha próxima à casa da Eliane, praticamente um vilarejo, chamado Hohenstein.
 
Um restaurante com a placa Bierhaus atraiu irresistivelmente o meu olhar e minhas pernas começaram a ir praticamente sozinhas naquela direção. Algumas brejas e salsichas, bate-papo com a dona do restaurante (na Alemanha quase todo mundo fala inglês), e voltamos para casa, porque mais tarde a Preta faria um jantar especial na casa dela, com pratos típicos da Alemanha (e que foi muito gostoso, muita comida e bebida!). Aproveitamos a tarde para já deixar reservado um carro para o dia seguinte logo pela manhã. Nosso próximo destino: Rothemburg ob der Tauber.
Agora atrás do volante de um possaaaante Pólo (completinho, por 33 euros a diária) segui a 200km/h, pé no talo, pelas famigeradas Autobans, tapetes de asfalto onde placas com o desenho de um círculo cortado indicam os trechos em que não há limite de velocidade e a potência do motor é o limite.
Chegamos a Rothemburg e deixamos o carro encostado na muralha da cidade medieval. Rothemburg é uma cidade de vários ambientes, várias pequenas praças escondidas entre suas ruas tortuosas. A cidade deve ter umas cinco entradas, cada uma delas guardada por uma Torre, todas diferentes entre si, e pode-se dar a volta na cidade caminhando sobre suas muralhas.


 Passamos pela praça da prefeitura e estava rolando uma feirinha de produtos locais, inclusive antepastos e conservas. Compramos camarão no azeite, antepasto de berinjela e alcachofra recheada, um pote de cada, e mais duas baguetes. 
 
No restaurante ao lado pegamos uma garrafa de cerveja escura amarga. Atravessamos a cidade e saímos do outro lado, em um mirante onde se tinha uma vista bem legal dos campos e vinhedos ao redor das muralhas. Ali fizemos nosso “lanche”. 
Depois seguimos caminhando pelos vinhedos, sempre ladeando as muralhas: tanto fora quanto dentro delas, tudo é muito bonito e idílico. Rothenburg é muito bem cuidada, com suas casas impecáveis no estilo enxaimel e flores da estação nas janelas. Também tem um relógio na praça onde a cada hora acontece um espetáculo com bonecos. E doces que louvam com hosanas o nobre pecado da gula (naquela noite passei algumas horas no banheiro por conta disso). 






 Voltamos já era noite e quando chegamos à casa da Marcinha a festa já estava armada. Casais de amigos, brasileiros e alemães, foram convidados para uma feijoada caprichada. Comemos, bebemos, bebemos e demos muitas risadas. No meio das conversas, uma sugestão inesperada que se transformaria no nosso roteiro para o dia seguinte: o Castelo Hohenzollern.
 
O Castelo fica no alto de uma colina, a única em uma enorme planície, e por isso ele pode ser avistado de bem longe, dominando toda a paisagem (são 900 metros de altura da planície até o topo da colina). O castelo é imponente, com várias torres pontiagudas e um pátio enorme que rodeia todo o seu perímetro; nesse pátio estão as estátuas de todos os nobres e reis que o ocuparam ao longo dos séculos. A planície vista lá de cima é espetacular. Decidimos não fazer a visita ao interior, pois já iríamos fazer isso em Neuschwanstein.


 Na volta, vimos uma placa na estrada dizendo que a cidade de Rottweill estava a meros 30 km dali. Essa foi a cidade que desenvolveu a raça dos Rottweiller, que aprendi a gostar e admirar, pois na casa dos meus pais havia o Joe, cachorro do meu irmão, que deixou muitas saudades. E foi em homenagem a esse amor que todos nós tivemos pelo Joe que mudamos o rumo e fomos até lá. De lembrança para o meu irmão, eu trouxe uma foto da estátua na praça central da cidade, sob a qual está escrito “O Rottweiller”.


 
O dia seguinte amanheceu beeeem frio, com uma chuva fininha que “ajudava” ainda mais. Dessa vez foram conosco a Marcinha e o “figura” do Davi, seu filho de cinco anos. Com todos devidamente encapotados, saímos rumo ao Castelo de Neuschwanstein.
Conhecido também, no linguajar turístico, como o Castelo da Bela Adormecida (Walt Disney baseou-se nele para construir o castelo que está na Disneylândia), o Castelo de Neuschwanstein excede em muito a essa referência, que é puramente comercial e só serve para transformá-lo em uma Atração turística com “A” maiúsculo (é um dos mais populares destinos turísticos europeus).
Neuschwanstein foi o castelo dos sonhos de um rei louco, Luis II da Baviera, mas também sua prisão e seu túmulo. Desde a infância encantado com as sagas e heróis da época medieval, Luis II resolveu ter seu próprio castelo medieval, em pleno século XIX. E ali ele viveu seu sonho de contos de fadas até ser encontrado morto, após perder o trono por ter sido considerado demente.
Entramos no castelo (grupos e horários pré-agendados) no exato instante em que a chuva começou a apertar. No grupo havia umas quinze pessoas, sendo que, curiosamente, um casal fez toda a visita vestindo roupas da época, alugadas no próprio local. No interior do castelo, as paredes de todas as salas, quartos e salões são quase que inteiramente cobertas por impressionantes desenhos hiperrealistas baseados nas lendas medievais germânicas. Pena não poder tirar fotos, porque é tudo muito incrível.
Saímos do tour e fomos caminhando até a ponte Marienbruck, onde se tem o visual de cartão postal do castelo. 

 A chuva havia parado e a natureza dado o seu toque de mágica:  com o frio intenso, a água já caiu sob a forma de neve nas montanhas mais altas, cobrindo os picos como um manto, e as árvores próximas a eles como açúcar de confeiteiro. O visual ficou realmente impressionante, e nós continuamos na estrada rumo a Áustria, onde as montanhas dos Alpes Austríacos também estavam cobertas de neve. Plus da viagem.
 Em nosso último dia na Alemanha (e na Europa), fomos conhecer Stuttgart, o que foi bem rápido, porque é uma cidade grande e não tem muito pra ser visto. Depois, fomos até Ulm (a pronúncia certa desse nome é um exercício de contorcionismo pra língua), visitar a igreja mais alta do mundo (163 metros). Por último, a última refeição: um delicioso joelho de porco, todo pururuca.

 À noite pegamos o que sobrou de dinheiro, em “cash”, e fizemos uma “compra do mês” na Alemanha: vinhos, chocolates, embutidos, condimentos, enlatados, o foco era tudo aquilo que não se achava no Brasil. Como o limite de peso são duas malas de 32kg por pessoa, fizemos a festa (hoje, à essa altura do campeonato, já foi tudo devidamente degustado e apreciado).
Aqui termina o relato dessa viagem à Europa, que foi tão especial pra gente. Na verdade, somente poucos dias depois, já no Brasil, foi que caiu a ficha em relação à real dimensão da viagem que havíamos feito. Foi quando também já começamos a sentir muitas saudades. . .







sábado, 4 de maio de 2013

É NÓIS NA EUROPA - PARTE 5 - CESKY KRUMLOV


Quando decidimos colocar a República Tcheca em nosso roteiro, queríamos, além de Praga, aproveitar a estadia para conhecer alguma outra cidade na região. Sem idéias sobre qual poderia ser esse outro destino, busquei no Mochileiros.com alguma dica que pudesse “iluminar” nosso roteiro. Foi assim que chegamos à Cesky Krumlov, cidade sobre a qual nunca tínhamos ouvido falar, mas cuja descrição nos fez ter certeza de que aquele era um lugar onde valeria à pena ir. E ainda fomos além: diferentemente da maioria dos turistas, que geralmente fazem um “bate e volta” de Praga a Cesky Krumlov no mesmo dia, resolvemos passar uma noite lá e só voltar no fim do dia seguinte. Foi a melhor coisa que fizemos.
Sendo assim, comprei a passagem de ônibus aqui mesmo no Brasil, e levei comigo apenas o comprovante impresso. Já em Praga, na noite anterior à viagem, o gerente do hotel nos explicou como deveríamos fazer para chegar até a estação de ônibus: fácil, duas linhas de metrô e já estaríamos lá. Levantamos da cama às cinco e meia da manhã, para não corrermos nenhum risco, já que o ônibus sairia às sete da estação. Como voltaríamos depois à Praga e ficaríamos mais um dia no mesmo hotel, deixamos nossas malas pesadas lá e fomos apenas com as mochilas menores. Pra quem não está de carro, esses arranjos na logística são muito importantes para tornar a viagem menos cansativa e, é claro, mais leve e divertida.
Chegamos à estação de ônibus em Praga e o dia ainda estava escuro. A estação, vazia. Pra não perder o costume, confirmei umas três vezes, com motoristas escolhidos aleatoriamente, se o ônibus ainda não tinha saído. Então começou a chegar mais gente e, com poucos minutos de atraso, pegamos a estrada rumo a Cesky Krumlov. O ônibus ia quase lotado, mas bastante confortável e com um excelente serviço de bordo, algo um tanto quanto inesperado para uma viagem de apenas três horas.
Chegamos por volta das 10 da manhã e fomos direto para a Pension Adalbert (cinco minutos de caminhada), onde havíamos feito reserva. A pousada (ou pension . . .) fica bem no centro histórico, numa viela estreita, em um prédio do século 15. Ficamos muito satisfeitos com a escolha, já que o quarto era bastante confortável e com vista para o Castelo, sem falar no farto café da manhã servido no porão todo estilizado (a dona era de Cingapura, então tinha algumas coisas estranhas para um desjejum, como, por exemplo, pepino).
Deixamos nossas mochilas lá e saímos pra dar um rolê perscrutativo, sem se preocupar com roteiro ou qualquer coisa, apenas caminhar sem destino. Na verdade, Cesky Krumlov tem duas atrações: uma é o castelo, que domina toda a paisagem urbana do alto de uma colina, bem no centro da cidade. A outra atração é a própria cidade, que parece saída de um conto de fadas. Juntam-se as duas e você tem dois dias repletos de pequenos e grandes prazeres.




Por que Cesky Krumlov parece uma cidade de conto de fadas? Porque é pequena, com vielas estreitas e charmosas, e seculares casinhas coloridas de telhados impecáveis. Também porque tem um sinuoso riozinho de corredeiras que corta toda a cidade, cujo murmúrio das águas embala carinhosa e continuamente as caminhadas ao longo de suas margens. Além disso, é cercada por florestas que, no outono, acrescentam à já extraordinária paleta de cores da paisagem incríveis tons de dourado e vermelho. E, é claro, porque tem um castelo bem no centro, com uma torre incrível em estilo oriental e jardins perfeitos a perder de vista. Talvez por tudo isso, foi tombada como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO. Mas também, contrariamente a tudo isso, Cesky Krumlov foi a cidade escolhida para as filmagens do filme de terror “O Albergue”.


As ruas estavam bem movimentadas, já que Cesky Krumlov é bastante procurada por europeus e asiáticos. Resolvemos então conhecer o castelo. Pagamos e fomos primeiro subir na Torre. E por falar em Torre, acho que subimos umas quinze em toda a viagem pela Europa. Muitas com mais de 300 degraus. Queima calórica muito bem vinda haja vista a contínua ingestão de delícias gastronômicas (naquele momento tinha acabado de comer um doção nervoso!). Mas a vista da cidade lá de cima compensou o esforço.


E eu já ia descendo quando notei um ajuntamento repentino de pessoas na ponte sobre o fosso do castelo, lá embaixo. Rapidamente eu entendi o que acontecia. Algo que eu tinha até esquecido. Caminhando preguiçosamente pelo fosso, os guardiões do castelo se exibiam para os turistas: dois enormes ursos pardos. Uma das atrações do lugar, os animais vivem no fosso do castelo, uma área grande que se estende pelos dois lados sob a ponte. O local é arborizado, limpo e tem dois laguinhos de pedra, com direito até à queda dágua. Dá pra ver claramente que os animais são muito bem tratados. A “casa” deles fica debaixo da ponte e, para tirá-los de lá (afinal, o público quer vê-los!!), os tratadores colocam as frutas e verduras (nunca poderia imaginar que eles fossem vegetarianos) longe da “toca”. O público vibra, as crianças deliram, e os ursos . . . bom, eles não estão nem aí.



Depois entramos na área interna do castelo. Entre vestuários, armas, móveis e objetos seculares, chamou a nossa atenção o esqueleto de um santo, totalmente coberto de jóias e depositado em uma urna transparente (solenemente macabro!). Não lembro o nome, mas devia ser algum santo regional, já que eu nunca tinha ouvido falar nele.

Depois fomos aos porões do castelo, um labirinto de cavernas enormes onde, na época medieval, eram guardados os barris de vinho e, atualmente, abriga uma perturbadora exposição de um artista local (Miroslav Parel). Por sinal, em toda a cidade há obras desse cara. Por último, passeamos pelos extensos jardins do castelo, até a parte onde ele começa a se transformar em uma floresta sinistra (olha “O Albergue” aí!).






Comentando com a dona do hotel sobre as cervejas da Rep. Tcheca, ouvimos dela que havia uma marca de cerveja, a Eggenberg, que era produzida em Krumlov, e apenas lá, desde 1560. O compromisso batia novamente à minha porta. Agora tínhamos uma missão na cidade. Sair em busca da famigerada Eggenberg.
Metemo-nos pelas ruazinhas pitorescas de Krumlov com aquela sensação de que a qualquer momento o Pinocchio surgiria de dentro de uma daquelas casinhas, fugindo do velho Gepeto. Ou ouviríamos a melodia hipnótica do flautista de Hamelin invadindo a cidade. Ou então trombaríamos com um cavaleiro saindo apressadamente em direção à floresta, na busca pelo coração da Branca de Neve. Enquanto isso, Rapunzel aguardaria por seu amado, trancada na torre da igreja.
Em nossa demanda, atravessamos toda a cidadezinha, mas só achávamos a cerveja em lata. Então chegamos ao portão sul. Já fora dos muros, na ponte, topamos com um visual bucólico. O rio, agora praticamente um córrego, serpenteava em meio a uma pequena planície de grama baixa, salpicada de árvores com as cores do outono: quando passamos por lá na volta, tinha até um pessoal fazendo piquenique no lugar.

Mas tínhamos uma missão a cumprir e não podíamos parar por ali. Foi quando então olhamos para o outro lado da ponte e vimos um boteco, que parecia ser o “pé-sujo” da cidade (e era!). Em uma de suas paredes, pendurada, uma placa da cerveja Eggenberg.
Finalmente havíamos encontrado o Graal.
E ali, no “pé-sujo”, desfrutamos do sabor secular da cerveja, devidamente acompanhada por um mix de salsichas tchecas.

Ainda estava ao meio da tarde quando nos sentamos em um dos restaurantes às margens do rio; todos eles colocam suas mesas no gramado, em frente ao castelo, o que cria um ambiente de puro deleite. Comemos faisão e coelho, regados à canecas da Budweiser Budvar (segundo os tchecos, essa é a Budweiser original, questão que está em litígio com os americanos há mais de 40 anos). Depois de um tempo sentado ali, já com um bobo sorriso alcoólico nos lábios, começou a ventar. E o vento arrancava das árvores ao redor suas folhas maduras, ou seja, as vermelhas e douradas, que caiam em grande número e eram lançadas sobre o rio enquanto o sol as atingia em cheio, fazendo-as todas brilharem juntas, piscando no ar como luzes de uma árvore de natal etérea. Olhando pra tudo aquilo fiquei em uma espécie de êxtase: as folhas soltas brincando pelo ar, brilhando às centenas ao refletirem o sol, o murmúrio das corredeiras a poucos passos da nossa mesa, o castelo imponente do outro lado do rio, a paisagem ao redor que poderia inspirar dezenas de aquarelas. Nesse momento, eu simplesmente estiquei as pernas, cruzei as mãos atrás da cabeça como apoio, relaxei, e disse, para mim mesmo:
- Êêêêê vidããããão!!!!


Voltamos pro hotel e demos uma descansada. À noite, saímos pra jantar (caramba, como conseguimos comer tanto!). Em Cesky Krumlov há três tavernas medievais, instaladas no subsolo de prédios antigos, em grandes porões de pedra com várias salas interligadas, todas ambientadas e decoradas para fazê-lo sentir-se na Idade Média. Em uma delas, na praça central da cidade, você precisa entrar no saguão de um hotel para conseguir acessá-la, mas não há nada indicando o caminho. Então, em um canto totalmente escondido, você descobre uma porta muita antiga, de madeira, por onde eu, que tenho 1,85m, tive dificuldades para passar. A porta leva você a uma escada em caracol, tão estreita que chega a dar claustrofobia, e que desce vertiginosos 8 metros por uma cavidade rochosa. Então você chega à taverna. Conhecemos o lugar e, pra não perder a viagem, carcamos mais uma breja. Em outra, onde jantamos, as carnes são preparadas à maneira medieval, com o fogo no centro do salão, sob um duto rochoso por onde saía a fumaça. Nesse lugar ímpar, que recria em detalhes a atmosfera do mundo medieval, nós comemos muito, bebemos idem, e ainda teve sobremesa. A conta? O equivalente a R$65,00!!



No dia seguinte o tempo amanheceu chuvoso. Fomos até um dos restaurantes à beira do rio e pedimos ao garçon alguma bebida pra esquentar. Ele sugeriu a medovina, uma bebida típica feita à base de mel fermentado e água. Perguntei se a bebida não era o famoso e milenar hidromel, dos contos e lendas medievais, das histórias de fantasia, da mitologia grega, também conhecido como “néctar dos deuses”. Ele disse que sim e eu então pedi uma caneca, que chegou fumegante, trazendo em seu interior um dos sabores alcoólicos mais antigos da humanidade. Assim, debaixo de uma garoa fina, na cidade medieval de Cesky Krumlov, nós provamos o néctar dos deuses. E eu pedi bis.
A Jô depois quis dar um rolê pelas lojinhas, onde muitas já se enfeitavam com a decoração de natal, vendendo enfeites e badulaques em geral sobre o tema. Deixei-a em frente a uma delas, com os olhos brilhando diante de uma vitrine que parecia ter sido decorada pelos próprios duendes do Papai Noel. Aproveitei então para conhecer um lugar que eu já sabia que não a interessaria.
O Museu da Tortura de Cesky Krumlov também fica no subsolo de um prédio antigo. Você desce por uma escadaria de pedra e chega a uma série de salas rochosas escuras e úmidas, interligadas sequencialmente por corredores estreitos. Nessas salas ficam expostos diversos instrumentos de tortura, bem como cenários tétricos que revivem cenas de tortura, montadas com bonecos de cera bastante realistas. Há também folhetos explicativos que contam os detalhes de cada tipo de tortura e diversas histórias sobre essa prática na época medieval. Mas o mais arrepiante nessa atmosfera de terror intencionalmente criada são os sons. Durante todo o circuito (são quase dez salas interligadas) há um sistema de som funcionando. Desse sistema saem constantemente dois tipos de som: água pingando e . . . gritos. Mas não gritos chinfrins, de susto, ou de alguém que acabou dar uma topada no dedão. Não, não! Gritos que só podem nascer na mais extrema dor, gritos de total desespero. Gritos assombrados, que pareciam ecoar vindos do além. Gritos alimentados pelas mais cruéis torturas. Como estava um dia frio e chuvoso, não havia mais ninguém ali; caminhei solitário por mais de 30 minutos naquele ambiente escuro, subterrâneo e perturbador. Uma das experiências mais incríveis de toda a viagem.



Antes de pegar o ônibus de volta a Praga, uma última degustação: vinho quente. Completamente diferente do nosso, o vinho em questão é seco (ou seja, não adocicado) e vem com um envelope de açúcar (pra quebrar o amargo, sem, no entanto, transformar em um melaço) e um sachê de ervas para infusão. A única coisa em comum com o nosso é que é quente. Entramos no ônibus com o último sabor de Cesky Krumlov ainda nos lábios.