sexta-feira, 30 de março de 2012

UMA LONGA JORNADA

           Grosso modo, o futebol é um esporte onde 22 jogadores, espalhados por um campo de 80m x 100m, correm atrás de uma bola com o objetivo de lançá-la ao gol adversário. Fazem isso por 90 minutos, divididos em dois tempos de 45 minutos. Pergunta: como foi definido o tempo de 90 minutos para uma partida de futebol? Como foi determinado esse tempo limite, quando o desgaste começa a comprometer a qualidade do espetáculo?
Procurei na net e não achei nenhuma explicação, apenas a de que tal regra de tempo foi estabelecida em 1875, e que um jogador corre entre 9 e 11 quilômetros durante uma partida. Penso que, em 1875, não havia estatísticas ou cálculos a serem considerados para essa conta, o que me leva a crer que a decisão foi na base do “achômetro” ou algo parecido.
Bom, eu comecei com essa conversa para fazer uma analogia entre o futebol e a jornada de trabalho do capitalismo. A Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 destaca que “Todo homem tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.” A questão é: o que seria uma limitação razoável das horas de trabalho? Que jornada é essa que proporcionaria suficiente repouso e lazer para termos qualidade de vida no século XXI? Que limite seria esse, quando o desgaste começa a comprometer a qualidade de vida?
            Na Revolução Industrial, a submissão às extenuantes, degradantes e humilhantes condições de trabalho era sustentada pela fome, pela necessidade de bancar a própria sobrevivência, ou a de seus filhos, como foi o caso em Os Miseráveis. Nesses guetos pré-industriais, muitos morriam ou se prejudicavam ao extremo em jornadas laborais de dezesseis, quase sempre dezoito, horas de trabalho, em ambientes insalubres ao extremo e com alto índice de acidentes fatais, e a vida, por muito tempo, e de muitas pessoas, em essência tornou-se isso.
Então, seqüenciais manifestações de revolta, durante os séculos XIX e XX, quando muitos foram punidos com enforcamento ou prisão perpétua, forçaram a redução desse quadro às 44 horas semanais atuais (aproximadamente oito horas e trinta minutos por dia).
Mas ter havido redução significativa não indica que estejamos em um bom patamar. Mesmo porque, à jornada de trabalho, na vivência real da experiência, somam-se os tempos de locomoção (ida e volta) mais o horário de refeição. No mínimo, são mais três horas “amarrado” à empresa. Nas cidades grandes essa conta aumenta. Ou seja, quase metade de seu dia, onde oito horas você dorme (ou pelo menos deveria dormir), você passa a serviço da empresa. Outro parâmetro que impacta nessa conta é a qualidade do tempo passado nessas horas trabalhadas; ou seja, desafios constantes e inatingíveis, pressão intensa por produção, desrespeito aos limites e características pessoais, imposição de estruturas organizacionais engessadas, cobranças desmedidas quanto ao resultado dos trabalhos, assédio moral dos mais diversos tipos, tudo isso pode transformar a jornada de trabalho em um longo e extenuante calvário diário.
Com a redução da jornada, talvez tenhamos apenas saído de uma situação insuportável, sustentada por um sistema de trabalho cruel e desumano, para outra suportável, mas com sérias ressalvas, sendo estas cada vez mais notáveis. Saímos do desespero da fogueira para o desconforto do asfalto quente, do inaceitável para o ruim. Tenho dificuldades em me contentar com isso.
Nas quatro horas livres que temos por dia, precisamos estudar, praticar esportes, fazer compras no supermercado, preparar a comida, lavar a louça, cuidar da casa, dar atenção aos filhos, ir ao médico, fazer exames, e, se sobrar algum tempo, descansar. Às vezes, até se tem a impressão de que as jornadas se emendam, dependendo do horário que se chega em casa, quando o intervalo entre elas não é preenchido pelo descanso necessário.
Muitas pessoas saem de casa com o dia ainda escuro e só retornam com o dia já escuro. Pais pouco tempo têm para seus filhos, casais pouco tempo têm para conversar e conviver. Isso sem falar no fenômeno da compensação da ausência, quando pais tentam, através de presentes e mimos, diminuir as conseqüências de sua ausência no dia-a-dia dos filhos, sem entender que o convívio familiar é fundamental para a criação de valores e formação da personalidade. Há também os filhos que entendem a ausência dos pais como rejeição, o que pode criar um terreno propício para o desenvolvimento de uma personalidade com sérios problemas de relacionamentos. Uma pesquisa realizada na Inglaterra revela que, para tentar compensar sua ausência, muitos pais chegam a gastar, por ano, o equivalente a cerca de R$ 5,6 mil. A mesma pesquisa diz que longas jornadas de trabalho são o principal motivo dado para a falta de tempo para a família.
Fazer vista grossa para os erros do filho, realizar todos as suas vontades, nunca dizer “não” para os seus desejos, são comportamentos dos pais que estão criando toda uma geração de “reizinhos” e “príncipes”, cuja noção de coletividade e convívio social está sendo distorcida por uma postura ególatra alimentada justamente por essa omissão dos pais. Quem já não viu uma charge que mostra, antigamente, a professora e os pais questionando o filho sobre a nota baixa e, hoje em dia, o filho e os pais questionando a professora pela nota baixa? E quando essas crianças se tornarem parte da população produtiva do país, quando forem elas a tomarem as decisões e escolhas que darão um rumo ao país, e então, como será?
Além disso, os números envolvendo afastamentos no trabalho relacionados a stress e depressão vêm aumentando significativamente. Em uma recente pesquisa, mais da metade dos entrevistados declararam não estarem satisfeitos com o seu trabalho. Isso sem falar naqueles que estão sempre no limite, mas que sequer cogitam em reconhecer o fato; ninguém os avisou que era permitido ficar descontente, que podiam reclamar, que há, sim, um limite para sua disponibilidade e disposição em atender as demandas dessa modernidade acelerada. Mas a obrigação de sempre satisfazer as expectativas da sociedade atropela o homem moderno. Adaptamo-nos fielmente a esse modelo de trabalho e aceitamos prontamente suas condições. Tenho pra mim que adaptar-se a algo que não está bom é diminuir drasticamente as chances de que algum dia aquilo mude.
Bom, fica aqui a minha bandeira, ou melhor, finco aqui a minha bandeira: Trinta horas semanais. Seis horas por dia.