sábado, 4 de maio de 2013

É NÓIS NA EUROPA - PARTE 5 - CESKY KRUMLOV


Quando decidimos colocar a República Tcheca em nosso roteiro, queríamos, além de Praga, aproveitar a estadia para conhecer alguma outra cidade na região. Sem idéias sobre qual poderia ser esse outro destino, busquei no Mochileiros.com alguma dica que pudesse “iluminar” nosso roteiro. Foi assim que chegamos à Cesky Krumlov, cidade sobre a qual nunca tínhamos ouvido falar, mas cuja descrição nos fez ter certeza de que aquele era um lugar onde valeria à pena ir. E ainda fomos além: diferentemente da maioria dos turistas, que geralmente fazem um “bate e volta” de Praga a Cesky Krumlov no mesmo dia, resolvemos passar uma noite lá e só voltar no fim do dia seguinte. Foi a melhor coisa que fizemos.
Sendo assim, comprei a passagem de ônibus aqui mesmo no Brasil, e levei comigo apenas o comprovante impresso. Já em Praga, na noite anterior à viagem, o gerente do hotel nos explicou como deveríamos fazer para chegar até a estação de ônibus: fácil, duas linhas de metrô e já estaríamos lá. Levantamos da cama às cinco e meia da manhã, para não corrermos nenhum risco, já que o ônibus sairia às sete da estação. Como voltaríamos depois à Praga e ficaríamos mais um dia no mesmo hotel, deixamos nossas malas pesadas lá e fomos apenas com as mochilas menores. Pra quem não está de carro, esses arranjos na logística são muito importantes para tornar a viagem menos cansativa e, é claro, mais leve e divertida.
Chegamos à estação de ônibus em Praga e o dia ainda estava escuro. A estação, vazia. Pra não perder o costume, confirmei umas três vezes, com motoristas escolhidos aleatoriamente, se o ônibus ainda não tinha saído. Então começou a chegar mais gente e, com poucos minutos de atraso, pegamos a estrada rumo a Cesky Krumlov. O ônibus ia quase lotado, mas bastante confortável e com um excelente serviço de bordo, algo um tanto quanto inesperado para uma viagem de apenas três horas.
Chegamos por volta das 10 da manhã e fomos direto para a Pension Adalbert (cinco minutos de caminhada), onde havíamos feito reserva. A pousada (ou pension . . .) fica bem no centro histórico, numa viela estreita, em um prédio do século 15. Ficamos muito satisfeitos com a escolha, já que o quarto era bastante confortável e com vista para o Castelo, sem falar no farto café da manhã servido no porão todo estilizado (a dona era de Cingapura, então tinha algumas coisas estranhas para um desjejum, como, por exemplo, pepino).
Deixamos nossas mochilas lá e saímos pra dar um rolê perscrutativo, sem se preocupar com roteiro ou qualquer coisa, apenas caminhar sem destino. Na verdade, Cesky Krumlov tem duas atrações: uma é o castelo, que domina toda a paisagem urbana do alto de uma colina, bem no centro da cidade. A outra atração é a própria cidade, que parece saída de um conto de fadas. Juntam-se as duas e você tem dois dias repletos de pequenos e grandes prazeres.




Por que Cesky Krumlov parece uma cidade de conto de fadas? Porque é pequena, com vielas estreitas e charmosas, e seculares casinhas coloridas de telhados impecáveis. Também porque tem um sinuoso riozinho de corredeiras que corta toda a cidade, cujo murmúrio das águas embala carinhosa e continuamente as caminhadas ao longo de suas margens. Além disso, é cercada por florestas que, no outono, acrescentam à já extraordinária paleta de cores da paisagem incríveis tons de dourado e vermelho. E, é claro, porque tem um castelo bem no centro, com uma torre incrível em estilo oriental e jardins perfeitos a perder de vista. Talvez por tudo isso, foi tombada como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO. Mas também, contrariamente a tudo isso, Cesky Krumlov foi a cidade escolhida para as filmagens do filme de terror “O Albergue”.


As ruas estavam bem movimentadas, já que Cesky Krumlov é bastante procurada por europeus e asiáticos. Resolvemos então conhecer o castelo. Pagamos e fomos primeiro subir na Torre. E por falar em Torre, acho que subimos umas quinze em toda a viagem pela Europa. Muitas com mais de 300 degraus. Queima calórica muito bem vinda haja vista a contínua ingestão de delícias gastronômicas (naquele momento tinha acabado de comer um doção nervoso!). Mas a vista da cidade lá de cima compensou o esforço.


E eu já ia descendo quando notei um ajuntamento repentino de pessoas na ponte sobre o fosso do castelo, lá embaixo. Rapidamente eu entendi o que acontecia. Algo que eu tinha até esquecido. Caminhando preguiçosamente pelo fosso, os guardiões do castelo se exibiam para os turistas: dois enormes ursos pardos. Uma das atrações do lugar, os animais vivem no fosso do castelo, uma área grande que se estende pelos dois lados sob a ponte. O local é arborizado, limpo e tem dois laguinhos de pedra, com direito até à queda dágua. Dá pra ver claramente que os animais são muito bem tratados. A “casa” deles fica debaixo da ponte e, para tirá-los de lá (afinal, o público quer vê-los!!), os tratadores colocam as frutas e verduras (nunca poderia imaginar que eles fossem vegetarianos) longe da “toca”. O público vibra, as crianças deliram, e os ursos . . . bom, eles não estão nem aí.



Depois entramos na área interna do castelo. Entre vestuários, armas, móveis e objetos seculares, chamou a nossa atenção o esqueleto de um santo, totalmente coberto de jóias e depositado em uma urna transparente (solenemente macabro!). Não lembro o nome, mas devia ser algum santo regional, já que eu nunca tinha ouvido falar nele.

Depois fomos aos porões do castelo, um labirinto de cavernas enormes onde, na época medieval, eram guardados os barris de vinho e, atualmente, abriga uma perturbadora exposição de um artista local (Miroslav Parel). Por sinal, em toda a cidade há obras desse cara. Por último, passeamos pelos extensos jardins do castelo, até a parte onde ele começa a se transformar em uma floresta sinistra (olha “O Albergue” aí!).






Comentando com a dona do hotel sobre as cervejas da Rep. Tcheca, ouvimos dela que havia uma marca de cerveja, a Eggenberg, que era produzida em Krumlov, e apenas lá, desde 1560. O compromisso batia novamente à minha porta. Agora tínhamos uma missão na cidade. Sair em busca da famigerada Eggenberg.
Metemo-nos pelas ruazinhas pitorescas de Krumlov com aquela sensação de que a qualquer momento o Pinocchio surgiria de dentro de uma daquelas casinhas, fugindo do velho Gepeto. Ou ouviríamos a melodia hipnótica do flautista de Hamelin invadindo a cidade. Ou então trombaríamos com um cavaleiro saindo apressadamente em direção à floresta, na busca pelo coração da Branca de Neve. Enquanto isso, Rapunzel aguardaria por seu amado, trancada na torre da igreja.
Em nossa demanda, atravessamos toda a cidadezinha, mas só achávamos a cerveja em lata. Então chegamos ao portão sul. Já fora dos muros, na ponte, topamos com um visual bucólico. O rio, agora praticamente um córrego, serpenteava em meio a uma pequena planície de grama baixa, salpicada de árvores com as cores do outono: quando passamos por lá na volta, tinha até um pessoal fazendo piquenique no lugar.

Mas tínhamos uma missão a cumprir e não podíamos parar por ali. Foi quando então olhamos para o outro lado da ponte e vimos um boteco, que parecia ser o “pé-sujo” da cidade (e era!). Em uma de suas paredes, pendurada, uma placa da cerveja Eggenberg.
Finalmente havíamos encontrado o Graal.
E ali, no “pé-sujo”, desfrutamos do sabor secular da cerveja, devidamente acompanhada por um mix de salsichas tchecas.

Ainda estava ao meio da tarde quando nos sentamos em um dos restaurantes às margens do rio; todos eles colocam suas mesas no gramado, em frente ao castelo, o que cria um ambiente de puro deleite. Comemos faisão e coelho, regados à canecas da Budweiser Budvar (segundo os tchecos, essa é a Budweiser original, questão que está em litígio com os americanos há mais de 40 anos). Depois de um tempo sentado ali, já com um bobo sorriso alcoólico nos lábios, começou a ventar. E o vento arrancava das árvores ao redor suas folhas maduras, ou seja, as vermelhas e douradas, que caiam em grande número e eram lançadas sobre o rio enquanto o sol as atingia em cheio, fazendo-as todas brilharem juntas, piscando no ar como luzes de uma árvore de natal etérea. Olhando pra tudo aquilo fiquei em uma espécie de êxtase: as folhas soltas brincando pelo ar, brilhando às centenas ao refletirem o sol, o murmúrio das corredeiras a poucos passos da nossa mesa, o castelo imponente do outro lado do rio, a paisagem ao redor que poderia inspirar dezenas de aquarelas. Nesse momento, eu simplesmente estiquei as pernas, cruzei as mãos atrás da cabeça como apoio, relaxei, e disse, para mim mesmo:
- Êêêêê vidããããão!!!!


Voltamos pro hotel e demos uma descansada. À noite, saímos pra jantar (caramba, como conseguimos comer tanto!). Em Cesky Krumlov há três tavernas medievais, instaladas no subsolo de prédios antigos, em grandes porões de pedra com várias salas interligadas, todas ambientadas e decoradas para fazê-lo sentir-se na Idade Média. Em uma delas, na praça central da cidade, você precisa entrar no saguão de um hotel para conseguir acessá-la, mas não há nada indicando o caminho. Então, em um canto totalmente escondido, você descobre uma porta muita antiga, de madeira, por onde eu, que tenho 1,85m, tive dificuldades para passar. A porta leva você a uma escada em caracol, tão estreita que chega a dar claustrofobia, e que desce vertiginosos 8 metros por uma cavidade rochosa. Então você chega à taverna. Conhecemos o lugar e, pra não perder a viagem, carcamos mais uma breja. Em outra, onde jantamos, as carnes são preparadas à maneira medieval, com o fogo no centro do salão, sob um duto rochoso por onde saía a fumaça. Nesse lugar ímpar, que recria em detalhes a atmosfera do mundo medieval, nós comemos muito, bebemos idem, e ainda teve sobremesa. A conta? O equivalente a R$65,00!!



No dia seguinte o tempo amanheceu chuvoso. Fomos até um dos restaurantes à beira do rio e pedimos ao garçon alguma bebida pra esquentar. Ele sugeriu a medovina, uma bebida típica feita à base de mel fermentado e água. Perguntei se a bebida não era o famoso e milenar hidromel, dos contos e lendas medievais, das histórias de fantasia, da mitologia grega, também conhecido como “néctar dos deuses”. Ele disse que sim e eu então pedi uma caneca, que chegou fumegante, trazendo em seu interior um dos sabores alcoólicos mais antigos da humanidade. Assim, debaixo de uma garoa fina, na cidade medieval de Cesky Krumlov, nós provamos o néctar dos deuses. E eu pedi bis.
A Jô depois quis dar um rolê pelas lojinhas, onde muitas já se enfeitavam com a decoração de natal, vendendo enfeites e badulaques em geral sobre o tema. Deixei-a em frente a uma delas, com os olhos brilhando diante de uma vitrine que parecia ter sido decorada pelos próprios duendes do Papai Noel. Aproveitei então para conhecer um lugar que eu já sabia que não a interessaria.
O Museu da Tortura de Cesky Krumlov também fica no subsolo de um prédio antigo. Você desce por uma escadaria de pedra e chega a uma série de salas rochosas escuras e úmidas, interligadas sequencialmente por corredores estreitos. Nessas salas ficam expostos diversos instrumentos de tortura, bem como cenários tétricos que revivem cenas de tortura, montadas com bonecos de cera bastante realistas. Há também folhetos explicativos que contam os detalhes de cada tipo de tortura e diversas histórias sobre essa prática na época medieval. Mas o mais arrepiante nessa atmosfera de terror intencionalmente criada são os sons. Durante todo o circuito (são quase dez salas interligadas) há um sistema de som funcionando. Desse sistema saem constantemente dois tipos de som: água pingando e . . . gritos. Mas não gritos chinfrins, de susto, ou de alguém que acabou dar uma topada no dedão. Não, não! Gritos que só podem nascer na mais extrema dor, gritos de total desespero. Gritos assombrados, que pareciam ecoar vindos do além. Gritos alimentados pelas mais cruéis torturas. Como estava um dia frio e chuvoso, não havia mais ninguém ali; caminhei solitário por mais de 30 minutos naquele ambiente escuro, subterrâneo e perturbador. Uma das experiências mais incríveis de toda a viagem.



Antes de pegar o ônibus de volta a Praga, uma última degustação: vinho quente. Completamente diferente do nosso, o vinho em questão é seco (ou seja, não adocicado) e vem com um envelope de açúcar (pra quebrar o amargo, sem, no entanto, transformar em um melaço) e um sachê de ervas para infusão. A única coisa em comum com o nosso é que é quente. Entramos no ônibus com o último sabor de Cesky Krumlov ainda nos lábios.



sexta-feira, 12 de abril de 2013

É NÓIS NA EUROPA - PARTE 4 (REP. TCHECA)


Acordamos para o nosso terceiro dia em Praga com muito entusiasmo. Os dois dias anteriores nos havia deixado eufóricos e a expectativa era de que esse clima de deslumbramento não fosse acabar tão cedo. Compramos algumas coisas no supermercado em frente ao hotel, montamos uns sandubas (presunto Parma, queijos diversos, defumados, tudo muuuuito barato!) e saímos rumo ao Josefov, o bairro judeu de Praga.
O povo judeu está em Praga desde o século XII, quando fundaram uma comunidade próxima à Praça da Cidade Velha; no passado, chegaram a viver lá perto de 180 mil pessoas. Ao longo da história, os judeus de Praga sofreram diversos massacres e perseguições, sendo o último à época da Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas tiveram a intenção de criar no bairro um museu para uma raça extinta (o Terceiro Reich tinha a convicção de que conseguiria eliminar completamente todo o povo judeu da face da Terra). Nesse museu do horror seriam expostos objetos dos mais diversos tipos, frutos de pilhagens em casas judias e sinagogas de toda a Europa Central. Tais objetos simbolizariam a vida e os costumes de um povo que, executados os planos nazistas de extermínio, não mais existiria.
Do hotel ao Josefov dá uns dez minutos de caminhada. Passamos pela Praça Velha e aproveitei pra tirar uma foto dos pedaços de tender defumando no gira-grill nas barracas da praça. 

Depois, a gente seguiu por uma longa avenida até chegar ao bairro. Essa avenida é uma espécie de passarela por onde desfilam as lojas chiques européias, como Louis Vuitton, Prada, Gucci, e o escambau! Ou seja, passamos direto e de nariz empinado (afinal de contas não nos misturamos com esse tipo de gente!).
Já no Josefov, compramos o ticket que dava direito a entrar em todas as sinagogas e ainda no cemitério. Os lugares são bem próximos uns dos outros, num raio de no máximo 2 quarteirões.
Começamos pela Velha Sinagoga, a mais antiga da Europa ainda em funcionamento, construída no século XIII. Logo na entrada os homens já recebem um kipá para cobrir a cabeça. Como eu já estava de boné, guardei como lembrança. Lá dentro a gente tem acesso ao salão principal, que é muito bem conservado, mas é proibido tirar fotos: como o espaço era pequeno e tinha muita gente olhando, achei melhor não arriscar, apesar da tentação. Depois seguimos para as outras sinagogas, onde objetos sacros, vestimentas ritualísticas e documentos estavam expostos e contavam um pouco dos mais de 800 anos de história do bairro e seus moradores. Mas nada podia nos ter preparado para o que vimos na sinagoga Pinkas.
Você entra e sobe até o 2º andar. Chegando lá, percebe que há vários salões interligados. Aproxima-se das paredes e vê que todas, do rodapé ao teto, estão completamente cobertas por palavras miúdas, quase ilegíveis, praticamente emendadas umas às outras. Ali estão os nomes dos quase 80.000 judeus da República Tcheca que foram assassinados sob o regime nazista. É quando você percebe o quão frio e superficial um número isolado pode ser. Falar em oitenta mil pessoas assassinadas pode não suscitar em quem ouve uma real percepção da tragédia, ainda mais se compararmos às milhões de mortes contabilizadas ao final da guerra, assustadores números de oito dígitos. Mas a visão dos oitenta mil nomes cobrindo as paredes daqueles salões atinge em cheio o visitante, deixando-o verdadeiramente consciente das reais e brutais dimensões do apocalipse nazista. Imaginem então o que provocaria no espírito a visão de oitenta mil corpos . . .
Depois de atravessar os salões há uma sala, pequena, mas que guarda entre suas paredes um registro sensível da inocência das crianças, sempre esquecidas em tempos de guerra. Ali estão expostos centenas de desenhos feitos pelos meninos e meninas judias do campo de concentração de Terezin, próximo à Praga, de onde algumas escaparam (242), e onde muitas morreram (aproximadamente 7.000). Do lúdico ao sombrio, do amor ao ódio, da esperança ao desespero, os desenhos refletem o que ia no espírito de cada uma daquelas crianças, cujas mentes inocentes sofriam, perturbadas, com a crueldade de uma guerra que, como todas as outras, não reconhecia sua condição infantil.
Depois dessa experiência bastante introspectiva, seguimos para o Antigo Cemitério Judaico. Esse cemitério, além de ser muito antigo (alguns estudiosos afirmam que ele data do século 10), traz outra característica que foge do lugar comum. Como já foi dito, ao longo da história os judeus de Praga sofreram várias espécies de perseguição, dentre elas a segregação e confinamento da população judaica no Josefov por séculos. Sendo assim, com o passar dos anos, o espaço no cemitério acabou se tornando insuficiente para atender a demanda. A saída encontrada foi ir “enterrando” o próprio cemitério à medida que acabava o espaço para novas sepulturas, cobrindo-o completamente e criando, assim, uma nova área para os sepultamentos. No total foram 12 camadas de terra sobrepostas umas às outras ao longo dos séculos. Como, segundo os preceitos judaicos, as lápides não podem ser removidas, as mais antigas, cujos túmulos haviam sido cobertos de terra, eram recolocadas sobre as novas camadas de solo. Essa é a razão pela qual as lápides ficam tão próximas umas das outras, quase encavaladas, desenhando um cenário caótico que é a marca registrada do cemitério e a razão por ele ser tão admirado e visitado. Eu achei tudo muito legal, tanto o visual quanto a própria história do lugar. Secretamente, tirei algumas fotos enquanto caminhava por entre as lápides. Só como curiosidade, esse cemitério é o mesmo que dá nome ao romance do escritor Umberto Eco, O Cemitério de Praga.


 Por último, fomos à Sinagoga Espanhola, de longe a que tinha o interior mais deslumbrante. Chegava a lembrar uma mesquita, tamanha a quantidade de detalhes nas pinturas de suas paredes (meu deus, tomara que não haja extremistas lendo esse texto!!). No alto, um lustre enorme com o formato da Estrela de Davi. Ali foi mais difícil tirar as fotos sem ser percebido, porque tinha uma tiazinha com cara de encrenqueira que não parava de “caçar” possíveis transgressores da regra. Mas eu dei um “balão” nela e sai clicando às cegas. As fotos não ficaram como eu queria, mas tá valendo . . .




Na volta do Josefov, reparamos mais detalhadamente em algo que já nos havia chamado a atenção: não existem cachorros de rua em Praga. Não vimos nem unzinho sequer! E não é porque a carrocinha da prefeitura (nem sei se existe isso lá!) captura e leva pro abate. A verdade é que o povo tcheco é apaixonado por cães. Até sessão de cinema para os cachorros assistirem com seus donos existe por lá! Já li que todo tcheco que se preze tem um cachorro, e que se você se mudar pra lá e quiser ser bem recebido na sociedade praguense, o primeiro passo é ter um ou dois cachorros. Nas ruas, a todo instante você encontra um praguense passeando com seu cão/cães. Eles os levam a todos os lugares! Até em restaurante eu vi pets deitados ao pé das mesas! No metrô também vi muitos! Na verdade, onde os cães não podem entrar há placas sinalizando a proibição; se não tiver uma placa proibindo, é certeza que os donos vão entrar com seus animais. Não poder entrar é a exceção à regra.
           Fomos então conhecer o Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa, onde está exposta a estatueta do Menino Jesus de Praga. Eu esperava uma baita igreja, com uma arquitetura impactante. Ledo engano. A igreja é bem simples por fora (ainda mais se comparada às outras igrejas e catedrais que conhecemos ao longo da viagem) e por dentro é uma igreja no estilo barroco, mas sem nada de especial. A estátua fica em um pequeno altar do lado direito da nave central, e não no altar principal. E estávamos admirando a obra de arte que é o altar quando algo chamou a atenção da Jô: uma imagem bastante familiar para nós brasileiros, mesmo os não religiosos. Ao lado do altar do Menino Jesus de Praga, uma estátua de Nossa Senhora de Aparecida, doada pelo embaixador do Brasil, nos deixou com um gostinho de saudade do nosso país. Não havia como não reparar, já que a cor negra de sua pele é inconfundível e diferente de qualquer outra estátua de Nossa Senhora pelo mundo. Depois entramos em uma sala, no fundo da igreja, onde estão expostas diversas roupinhas que são utilizadas para vestir a estatueta, costuradas por princesas e mulheres da alta nobreza ao longo dos últimos três séculos. Por último, compramos uma lembrança pra minha mãe em uma loja do lado de fora de igreja, já que a loja de dentro, a oficial, praticava um preço nada espiritual, um verdadeiro assalto.



Antes de voltarmos para o hotel, fomos comer alguma coisa. Como estávamos próximos ao Castelo, segui uma dica postada no Mochileiros.com sobre um restaurante medieval que havia por ali. O nome do lugar é U SEDMI ŠVÁBŮ, ou, traduzindo, OS SETE SWABIANS, que é o nome de um conto dos Irmãos Grimm (a Swabia é uma região cultural e lingüística da Alemanha, e não uma região física, demarcada). Foi muito fácil achar a taverna (palavra que combina muito mais com a época medieval do que restaurante) e quando entramos deixamos o século 21 pra trás e retornamos à Idade Média.
O interior é propositadamente “decorado” para se ter a sensação de um ambiente medieval: armaduras de cavaleiros, iluminação à base de velas (com candelabros cobertos pela cera derretida de centenas delas, como esculturas de uma caverna), cabeças de animais selvagens penduradas pelas paredes, peles felpudas cobrindo os bancos, paredes enegrecidas pelo tempo, tudo ali criava uma atmosfera que remetia à época da História que inspirou a maioria dos contos de fantasia. Dei cordas à imaginação e me permiti viver a minha própria. Para tornar o momento ainda mais único, eis que surge do nada uma dançarina com quatro malabares em chamas, executando uma dança alucinada e cheia de contorcionismos. Não sei se tinha isso na época medieval, mas que foi legal, ah, isso foi.





 No dia seguinte acordaríamos bem cedo, para pegar o ônibus que nos levaria a Cesky Krumlov, uma pitoresca cidadezinha no coração da República Tcheca.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

É NÓIS NA EUROPA - PARTE 3 (REP. TCHECA)

Chegamos a Praga perto da meia-noite, depois de cinco horas no aeroporto de Frankfurt esperando a conexão. Já sabendo que iríamos chegar “podres” e “detonados” e que o transporte público nesse horário iria ser complicado, deixei reservado um transfer do aeroporto até o Miles Hotel, perto da Praça Venceslau ( ou Vaclavské Namésti, como eles dizem por lá). Um senhor nos aguardava no desembarque, segurando uma placa com o meu nome. A percepção de que havíamos entrado em um universo lingüístico radicalmente diferente de nossas raízes latinas veio quando, enquanto eu usava o VTM para sacar coroas thecas no saguão do aeroporto, nosso motorista, com gestos, perguntou à minha mulher quem era o Júnior, eu ou ela . . .
A expectativa sobre Praga era enorme. Era talvez o lugar que eu mais queria conhecer de toda a viagem. Já tinha o mapa do centro histórico na minha cabeça, conhecia pormenores da história da cidade e sabia as direções de todos os monumentos.
A escolha do hotel mostrou-se bastante acertada. O Hotel Miles fica a, no máximo, cinco minutos de caminhada da Praça Velha, no coração de Praga (pelo mapa parecia mais longe, mas é muito, muito perto!). Tem supermercado bem em frente, vários pubs ao redor, o movimento non-stop da Praça Venceslau e a deliciosa comida de rua tcheca nas barracas espalhadas pela praça. Ficamos em um quarto privado com banheiro compartilhado (em Praga, quarto com banheiro privado é muito caro!). Tudo é muito limpo, organizado, e o staff é bastante amigável e prestativo. Cheguei a trocar euro por coroa tcheca lá, e a taxa de câmbio foi a melhor que encontrei em Praga.
Acordamos um pouco mais tarde no dia seguinte. Descemos do hotel e vimos que realmente estávamos praticamente na Praça Venceslau. As ruas lotadas nos mostravam que Praga é turismo o dia inteiro, o ano inteiro, com especial menção aos asiáticos, que chegam à cidade aos borbotões e em grandes grupos: casamentos de asiáticos nós vimos uns quinze, com direito a carruagens e toda a pompa.
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Bom, antes de qualquer atividade, paramos em uma lanchonete para comer um kebabizinho suculento. Café da manhã no bucho e seguimos praticamente em linha reta até desembocarmos na Praça da Cidade Velha. A torre do relógio astronômico com a Igreja de Nossa Senhora Diante de Tyn ao fundo é a foto a ser tirada.
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O nome da igreja vem de um mercado a céu aberto que existia na época medieval, chamado Tyn. Outra curiosidade da igreja é que sua porta de entrada não é visível, sendo necessário entrar por um dos prédios renascentistas que a cercam para conseguir acessá-la. Mas toda a Praça Velha é espetacular. Os prédios que a circundam são todos muito bonitos, com detalhes arquitetônicos em profusão, paredes pintadas com arabescos rebuscados e coloridos e estátuas incrustadas nas fachadas. No centro há uma grande estátua de Jan Huss, reformista religioso do século XV, cem anos antes de Lutero, que foi queimado vivo. Há ainda muitos músicos pela praça, do jazz ao medieval, do jovem ao idoso, todos vestidos a caráter, batalhando pelo pão de cada dia.


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Já sabíamos que em quinze minutos sairia um free tour em espanhol, então ficamos esperando por ali. Foi quando deu hora cheia e começou o espetáculo do relógio astronômico. Uma multidão olha pra cima quando os sinos repicam; dois a dois, os bonecos dos 12 apóstolos desfilam pelas janelinhas sobre o relógio. Quando termina, do alto da torre, um arauto declara uma curta melodia em seu clarim; ao final, ele acena para as pessoas lá embaixo, que irrompem em aplausos e urras. De hora em hora o espetáculo se repete.


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Um argentino de ascendência tcheca seria o nosso guia no free tour, que começou na própria praça. O grupo, enorme, andava atrás e ao redor do guia, todos se esforçando para ouvi-lo em meio ao ruído de fundo da cacofonia turística (free tour não tem a dupla microfone/fone de ouvido, como eu vi em muitos tours particulares; é no gogó mesmo!). Pra nós piorava um pouco o fato de ser em espanhol e do guia precisar falar bem rápido. Como havia muitos outros grupos do tamanho do nosso, quando acontecia de se cruzarem ou dividirem o mesmo lugar a confusão era certa e a mistureba de sons desnorteante. Foi legal, aprendemos muita coisa, mas depois de uma hora decidimos abandonar o barco e seguir por conta própria.
Depois seguimos até a colina Vysehrad, um parque histórico enorme onde, reza a lenda, uma princesa antiga previu o surgimento de Praga. Vysehrad também foi uma antiga fortaleza da realeza, antes da construção do castelo de Praga. Decidimos ir a pé mesmo, o que rendeu uma boa caminhada. Mas valeu a pena; fomos margeando o rio Vltava e curtindo o visual inacreditável que é Praga ao longo de sua extensão, principalmente o Castelo de Praga na margem oposta
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No caminho, acabamos sendo os observadores de uma cena curiosa. Uma mulher atravessou a rua com o sinal de pedestres fechado para ela. Um homem freou em cima para não atropelá-la e buzinou. A mulher pegou o cigarro que fumava e jogou no pára-brisa do carro. O homem estacionou o carro em cima da calçada, saiu, e pegou a bituca. A mulher, como se não tivesse feito nada, continuou caminhando. O homem saiu correndo atrás dela até alcançá-la e jogou o cigarro em sua cara. Aí começou um bate-boca desgraçado no meio da rua. Continuamos na caminhada, certo que de havíamos acabado de presenciar uma amostra do famoso “pavio curto” dos tchecos. Mas foi a nossa única experiência nesse sentido. Ainda bem.
Demos uma parada no Claustro Emausy, do século 13, já perto de Vysehrad. O claustro conta com diversos afrescos em suas paredes, representando várias passagens bíblicas, algumas até pouco conhecidas. Os afrescos já estão um tanto quanto deteriorados (também, 700 anos!), mas você recebe na entrada um folheto explicativo com a planta baixa do claustro e números representando os afrescos que remetem a um índice explicativo de cada desenho.
Bom, do centro até Vysehrad foram quatro quilômetros de caminhada. Nesses quatro quilômetros não vimos UM prédio moderno, apenas uma sequência infindável de prédios antigos, de vários períodos da história (medieval, barroco, renascentista, rococó, etc), quando cada edifício era construído como uma obra de arte única, cheia de detalhes e caprichos arquitetônicos. Andar por Praga é isso: caminhar por quilômetros e não parar de se deslumbrar com a beleza arquitetônica da cidade.
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Entramos em Vysehrad pelo portão principal, direto no pavilhão funerário do parque, onde estão sepultados os vip’s históricos de Praga, personalidades de destaque na arte e cultura thecas. Passamos túmulo por túmulo, cada um mais impressionante e pomposo que o outro.
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Em frente, está a Igreja de São Pedro e São Paulo, com suas duas imensas torres e pedras enegrecidas pelo tempo. Como Vysehrad fica em uma colina, tem-se um visual único de Praga, com vários mirantes.
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Voltamos para o hotel, mas não sem antes passar pela Praça Venceslau e comer uma espécie de tender em uma das barracas da rua. São pedaços enormes que ficam defumando em um gira-grill; eles cortam um pedaço, pesam, e acrescentam um refogado que mistura batata, repolho e bacon. Bom pra caralho!! Isso sem falar nas barracas de salsichas, dos mais diversos tipos.
No dia seguinte acordamos bem cedo, única maneira de curtirmos a Ponte Carlos vazia (no dia anterior ficamos assustados com o tamanho da multidão). Um dos cartões-postais de Praga, a Ponte Carlos (ou Karlúv most, como eles dizem por lá) começou a ser construída em 1357, às 5h31 do dia 9 de julho (isso mesmo, um astrônomo da época definiu o momento como ideal para a construção da obra). Na entrada, uma torre gótica enorme, o Portão da Pólvora, lindamente ornamentada com brasões e estátuas, forma o arco por onde todos passam para acessar a ponte (carros são proibidos ali). Que legal poder curtir a ponte vazia, porque ela realmente é fascinante e a multidão acaba “contaminando” o visual. Mas às 7 da manhã, com quase ninguém, você olha ao longo dos seus 520 metros de extensão e enxerga toda a sua imponência; sobre suas muradas, 30 belas estátuas barrocas a cobrem de santos e mártires, enfeitando-a de uma maneira única.
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Se você olhar para trás, da direção de onde veio, terás uma das fotos mais tiradas da Ponte Carlos, com o Portão da Pólvora em primeiro plano e os pináculos das igrejas, prédios e monumentos da Cidade Velha ao fundo.
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Ou seja, toda a ponte é uma obra de arte. Depois de passar pelo menos uma hora atravessando-a (apreciar os pormenores das estátuas ou mesmo a cidade de Praga ao redor vai levar no mínimo esse tempo), você chega ao outro lado, onde outra torre gótica também impressionante dá as boas-vindas a Malá Strana, o bairro do Castelo de Praga. Perfeita a definição que eu li em um site: é a ponte que liga o lindo ao maravilhoso. A foto ali traz outra composição incrível: a torre, com a cúpula verde da igreja de São Nicolau ao fundo, e o castelo de Praga no alto da colina.
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É o tipo de lugar onde, mesmo depois de ver tudo, você não consegue ir embora, quer olhar mais uma vez, encontrar algum detalhe que tenha passado despercebido. Mas a verdade é muito simples: a gente vai embora quando acaba, ou diminui, a sensação de deslumbramento, e isso demora pra acontecer na Ponte Carlos.
Pra chegar até o Castelo de Praga é só subida; no meio do caminho, a Igreja de São Nicolau, com sua cúpula gigantesca e muuuuito ouro em seu interior, é parada obrigatória. A subida é desgastante, mas é também compensadora; enquanto você segue pelas vielas, o visual da cidade lá embaixo vai ficando cada vez mais espetacular. É quando você entende o porquê de Praga ser conhecida como a cidade das mil torres. Já chegando próximo à entrada para o Castelo, paramos um pouco pra curtir um grupo de músicos de rua mandando ver na música tradicional tcheca.
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O Castelo de Praga é considerado, em área, o maior do mundo. Lá dentro estão o palácio real, onde vive o presidente da Rep. Tcheca, a catedral de São Vito, a Basílica de São Jorge (do ano 920) e a rua do Ouro, onde viviam os antigos alquimistas e também muitos artistas tchecos. O portão de entrada para o Castelo é conhecido como Portão dos Gigantes; sobre suas pilastras, enormes estátuas intimidam qualquer pretenso inimigo do estado tcheco: dois homens golpeando com clava e espada seus oponentes já subjugados. Uma imagem de pura crueldade que, em priscas eras, traduzia poder e controle.
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Passamos pelo portão e percebemos que as hordas de turistas já estavam presentes e a postos para invadir o castelo. Entrei na fila para comprar os bilhetes: são três rotas diferentes, cada uma dando direito a entrar em determinadas partes do castelo. Fizemos a rota B, a mais simples, e mesmo assim foram quase quatro horas pra conhecer tudo.
O primeiro lugar em que entramos foi na Catedral de São Vito, que você avista, maravilhado, de praticamente qualquer ponto de Praga. É o edifício-símbolo do Castelo de Praga (alguns acham até que a Catedral é o Castelo). Toda em estilo gótico, de pedras cor pastel enegrecidas pelo tempo, sua imponência faz qualquer turista ficar de boca aberta. Do lado de dentro, a quantidade de altares, pinturas, monumentos, estátuas é tão grande que chega até a “poluir” o visual. Os túmulos existentes, com suas lápides góticas de 800 anos atrás, são impressionantes; as lápides trazem em alto-relevo figuras ricamente vestidas e armadas, representando quem ali foi sepultado, geralmente nobres, cavaleiros, ou mesmo reis. Ou seja, no mínimo uma hora lá dentro pra conhecer tudo, devagar, curtindo cada detalhe. É claro que essa regra simplesmente parecia não fazer sentido para o turista oriental, que em sua esmagadora maioria caminhava a passos rápidos pelos corredores, sem parar para qualquer tipo de apreciação, enxergando tudo apenas através das lentes de suas máquinas fotográficas. Parecia uma competição de quem tirava mais fotos e, a julgar pelo empenho com que se dedicavam a tal tarefa, o prêmio deveria ser muito bom. Uma coisa engraçada aconteceu lá dentro: estava eu com a camisa do Fluminense quando ouvi uma voz atrás de mim perguntando, num sussuro: “você sabe quanto foi o FlaxFlu?”. Olhei pra trás e me deparei com uma mulher de meia-idade olhando ansiosamente pra mim, esperando pela resposta. “Um a zero, gol de bicicleta do Fred!”, respondi. Ela cerrou o punho e vibrou: “Ah, esse ano não tem pra ninguém. Vamos ser campeões!”. A vidente então seguiu seu caminho em silêncio.
Ainda no interior da Catedral, chama a atenção o túmulo de São João Nepomucemo. A sala que o abriga é impressionantemente decorada com pedras preciosas, afrescos e ricos ornamentos. Infelizmente não se pode entrar nela, apenas observá-la encostado na corda que impede o acesso.
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Saímos do interior da Catedral e começamos a contorná-la pelo lado de fora. De frente ela é imponente, mas quando você a vê em toda sua extensão é que se dá conta do quanto ela é grandiosa. Em uma das laterais, sobre um portal, há um mosaico dourado, enorme, conhecido como “Porta de Ouro”: é como uma jóia embelezando ainda mais uma outra jóia.
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Depois entramos no palácio, em sua parte antiga, e vimos vários brasões de famílias que, ao longo dos séculos, fizeram parte da aristocracia praguense. Algumas jóias da Coroa também estão expostas lá. Entramos também na Basílica de São Jorge, maior representante do estilo românico em Praga, que ainda possui algumas das paredes erguidas no século X, quando começou a ser construída (apesar de sua fachada ser do período barroco). Em seu interior, alguns nobres foram sepultados, incluindo Santa Ludmilla, primeira mártir cristã da Boêmia.
Na sequência visitamos a Rua Dourada, ou Beco Dourado, construída no séc. XVI, onde, reza a lenda, alguns alquimistas viveram, tentando descobrir a fórmula do ouro, daí seu nome. A rua na verdade é uma viela curta e estreita, parece mesmo um cortiço. O charme fica por conta das pequeninas casas coloridas ao longo de toda a sua extensão Quer dizer, charme enquanto atração turística no mundo contemporâneo, porque viver ali não deve ter sido fácil: as casas têm, no máximo, um quarto minúsculo e, quando muito, um cubículo pra trocar de roupa. Por sinal, estão todos mobiliados de acordo com a época em que eram habitados, e isso é bem legal, dá pra se ter uma idéia de como era o dia-a-dia das pessoas em suas casas naquele tempo.
Por último, um rolê pelos jardins do palácio, onde vários mirantes dispostos de maneira estratégica permitem “altas” fotos de Praga.
Terminada a visita ao palácio, seguimos subindo o bairro de Malá Strana, até chegarmos ao Mosteiro Strahov. O mosteiro é bonito, muito bem cuidado, mas o mais legal mesmo foi tomar as brejas que os monges fazem. Tem um restaurante lá, onde você toma vários tipos de cerveja, até aquelas que passam por processos mais rústicos e antigos, como, por exemplo, não filtrá-las. As porções de salsichas e miúdos que acompanham também são sucesso total.
Bom, cheguei a um ponto que merece especial atenção e comentários mais aprofundados: as cervejas da República Tcheca (antes, uma pausa pra limpar o canto da boca, que já começou a salivar!).
Sei lá quantas marcas provei, mas foram muitas; sei lá quantos litros tomei, mas também foram muitos.

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Quem me conhece sabe que, embora apreciador, meu limite para cerveja é muito baixo, não consigo beber muito. Em Praga, esse histórico particular não se confirmou (ainda bem!). Tomei cerveja até com sopa! Quer dizer, o que a gente chama de cerveja também poderia ser chamado de milk-shake de cevada, porque é essa a sensação que a cremosidade deixa no paladar, tão gostosa que no primeiro gole já vai metade da caneca de meio litro. Bom, as marcas são muitas e eu me senti na obrigação de provar a maior quantidade possível (eu sei que assumir compromissos nas férias não está com nada, mas desse eu não podia fugir!). É claro que tantas cervejas podem causar problemas quando não há banheiro público disponível, mas eu montei um esquema que funcionou muito bem: para ter o direito de usar o banheiro de um restaurante eu precisava consumir alguma coisa lá, ou seja, cerveja; minutos depois, de volta às ruas, aquela cerveja chegava na bexiga e eu acabava tendo que procurar outro restaurante para usar o banheiro . . . e para tanto eu precisava comprar mais cerveja, o que me levaria mais tarde à bexiga cheia e a mais um restaurante, onde eu teria que beber mais uma cerveja pra poder usar o banheiro . . . E foi nesse alegre e animado ciclo vicioso que eu decidi permanecer, chafurdando e submergindo completamente no ouro líquido tcheco. Não bebi cerveja em latinha, preferindo sempre a cerveja fresca tirada da máquina de chopp. E os preços eram altamente convidativos: de R$ 3 a R$ 4 a caneca de meio litro! Agora, se você fosse beber essa cerveja em um barco-restaurante, todo chique, ancorado às margens do rio Vltava, com um salão com paredes de vidro e vista para o Castelo de Praga, bom, aí você já pagaria . . . uns R$ 5!! Muito barato!! E os petiscos acompanham o bom preço! Comemos e bebemos pra caramba!!
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Por último, uma imagem curiosa que justifica a liderança da República Tcheca no ranking mundial de consumo de cerveja por pessoa: um caminhão-tanque abastecendo de cerveja um restaurante.


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Bom, esses foram os nossos dois primeiros dias na República Tcheca. Mas ainda ficou muita coisa pra contar . . .