terça-feira, 24 de abril de 2012

Supermercado: a missão

Ah!! Os supermercados!!!! Representantes passivos da modernidade inquieta, marcam presença em nosso cotidiano com seus corredores atulhados de produtos dos mais variados tipos, das mais variadas marcas, nas mais variadas cores. Corredores atulhados de pessoas dos mais variados tipos, buscando pelas mais variadas marcas, portando humores nas mais variadas cores. Um lugar por onde desfilam carrinhos transbordantes, quase sempre apressados, guiados com arrojo por humanos atentos ao mesmo tempo ao caminho e ao conteúdo das prateleiras. Local privado onde se reúnem todas as raças e credos, a pluralidade humana homogeneizada em um único desejo/necessidade: consumir.
Quase sempre muvucados, os supermercados trazem dentro de seus limites um retrato fiel do mundo contemporâneo que nos rodeia: filas, pressa, promoções, ofertas, encontros, desencontros, conversas rápidas e muita paciência. Á fórceps, abrimos espaços em nosso precioso e escasso tempo para estarmos lá, abastecendo-nos de necessidades e frivolidades. Sobre o tempo, podemos dizer que, nos supermercados, ele se comporta de maneira estranha, acelerando-se proporcionalmente à pressa que se tem.

Dia desses, eu, vendo a geladeira e o armário vazios, conclui que era a hora. Tinha de ir ao supermercado. Na manga, um pequeno truque: eu comprava em um supermercado que ainda não tinha sido descoberto pela massa urbana, e que possuía variedade e bons produtos. Ou seja, um bom supermercado que se mantinha quase sempre vazio. Não acredita que isso exista? Mas existia (pelo tempo verbal vocês já podem perceber que o esquema gorou). Desse supermercado eu não falava com ninguém, mantinha-o sob segredo de estado. Deixava os troux . . . que dizer, as pessoas, continuarem indo a um outro que havia por perto, bem maior e mais vistoso.
Bom, então eu entrei no carro e saí de casa rumo ao supermercado, feliz em ser detentor daquele segredo sagrado. Já me imaginava, carrinho cheio de produtos, caminhando imponentemente por um tapete vermelho, sem ninguém à frente, até o caixa, que me receberia com um sorriso cordial. Assobiando, eu entrei no estacionamento.
Parei abruptamente. O assobio foi morrendo em um decrescente cômico.
O estacionamento estava completamente lotado.
(Pausa longa)
Puta que o pariu!! Quem era todo aquele povo no MEU supermercado?! Desci do carro e fui bufando até a porta de entrada. Carrinhos, aos milhares (por favor, respeitem meu drama!), digladiavam-se pelos corredores, confundindo-se e misturando-se aos que já aguardavam nas filas de proporções quilométricas dos caixas. Quem havia sido o X-9 filho da puta que havia dado a letra do canal pra aquele povo todo? Por um tempo eu fiquei em pé, parado, só acompanhando com os olhos o entrar e sair da multidão. Pensei em subir em um balcão e, em alto e bom tom, organizar melhor aquela bagunça. Primeiro passo: dividir quem viria na segunda-feira, quem viria na terça, na quarta, e assim por diante, dividindo os horários para cada dia, evitando assim aquela aglomeração absurda. Segundo passo: ignorar a reclamação daqueles que diziam não poder vir no horário determinado. Terceiro passo: expulsar os reclamantes do supermercado. Quarto passo: confraternizar com o pessoal gente boa que ficasse.
Caindo na real e derrotado, sem vontade para encarar a situação, caminhei lentamente até o meu carro. Antes de sair, dei uma última olhada para trás. Era hora de seguir em frente, em busca de um novo supermercado.

https://steemit.com/pt/@juniordionesio/supermercado-a-missao

quarta-feira, 4 de abril de 2012

É nóis em Itacaré e Barra Grande

           Minha jornada começou no dia 02/03, quando saí da minha casa, as 5h30 da matina (carona até São José e depois ônibus até Cumbica). Cheguei em Ilhéus às duas da tarde: a idéia era pegar um táxi até a rodoviária e depois um ônibus tipo “cata-jeca” (que vai parando pra pegar gente pelo caminho) até Itacaré. Mas, ainda no aeroporto, ao meu lado, duas pessoas conversavam sobre Itacaré. Não perdi tempo e perguntei se elas não queriam rachar um táxi, direto do aeroporto até lá. Surgiu uma 3ª pessoa. Negociamos o preço com um taxista. Chegamos em Itacaré duas horas antes e praticamente pelo mesmo preço, fora o conforto. Fica a dica: mochileiro que não abre a boca corre o risco de perder boas oportunidades.
Achei logo uma pousada, no fim da Rua Pituba (Pousada Itaoca, R$ 40,00 a diária, com café, suíte com ar condicionado e frigobar). A Pousada Itaoca fica em frente à rua que dá acesso para a praia da Concha, e foi pra lá que eu fui depois de deixar as coisas no quarto. Cheguei a tempo de ver o sol se pôr atrás da cidade de Itacaré, brilhando na água do mar, criando um contraste deslumbrante. Muitas outras pessoas também estavam no lugar, conhecido como Ponta do Xaréu, e esse é o programa de fim de tarde preferido pelo pessoal da cidade. Depois do espetáculo, eu entrei na água, uma piscina de água morna e cristalina, e ali fiquei até o dia escurecer completamente. Aliás, anoitecer nas praias foi uma constante durante toda a minha viagem.
O pôr do sol em Itacaré
 No outro dia, decidi que iria pegar o ônibus na rodoviária e descer em frente à trilha para a praia de Jeribucaçu. Acabei saindo meio tarde da pousada e no meio do caminho mudei de idéia: peguei uma moto-táxi e combinei com o cara R$ 30,00 pra ele me levar até a entrada da trilha e depois buscar. Bem mais caro do que ir de ônibus, mas mais rápido e sem depender de horários. Mais uns 30 minutos de caminhada e eu já estava na praia.
Jeribucaçu é muito bonita. Pequena, rodeada de mata atlântica, possui uma parte mais afastada da areia, onde coqueiros enormes fazem sombra sobre uma área de grama rente ao chão, lugar ideal para esticar uma esteira e esquecer o mundo. O riozinho que deságua no mar é uma atração à parte, dá pra perder a conta do tempo boiando nas suas águas tranqüilas e transparentes. Só que dentro do mar as águas não estavam tão tranqüilas, e havia correnteza. É quando então surge a figura do Tiririca, dono de uma barraquinha onde se pode comprar deliciosas tapiocas e o “salva-vidas” da praia. Foram dele os assovios que eu ouvi e, a princípio, ignorei. Mas quando resolvi olhar pra trás, vi que o negócio era comigo: eu tinha me aproximado das pedras e nem havia percebido. Ele, sempre atento, foi me avisar, entrando na água e me explicando a situação. Mas o lugar dava pé e eu estava seguro, tanto que pensei em replicar. Mas daí eu percebi que estava prestes a representar justamente um papel que trazia tanta dificuldade ao meu trabalho como técnico de segurança: o daquele que se nega a compreender os riscos e agir preventivamente, gastando energia com argumentos tendenciosos para tentar justificar sua postura arriscada e irresponsável. Então, em silêncio, abaixei a cabeça, agradeci ao cara e me dirigi para o lado da praia onde ele havia me orientado a ir.
Jeribucaçu
Jeribucaçu










No outro dia, fui fazer a trilha das 4 praias. De novo de moto-táxi, cheguei à entrada da trilha e caminhei até a primeira delas, Engenhoca, onde, com um boné, dá pra tirar o sal do corpo com a água cristalina de um riacho que deságua lá. Um refrescante banho de boné. Depois segui até Hawaizinho, Gamboa, até chegar a Itacarezinho (que de inho não tem nada), onde fiquei até a hora de ir embora. Itacarezinho é fenomenal, estende-se a perder de vista, até uma área mais selvagem e deserta. No entanto, as pessoas permanecem apenas em uma de suas extremidades, onde existe um barzinho chiquetoso que cobra cem pila (consumação) pra usar as espreguiçadeiras cobertas que eles disponibilizam. Optei por continuar quietinho na minha sombra de coqueiro. Bem ao meu lado, um cano amarrado a uma árvore vertia continuamente a água doce captada de um pequeno riacho. Perfeito!
Itacarezinho
 Bom, esse foi meu último dia em Itacaré, onde conheci praias de águas cristalinas, quase mornas, de tons de verde e azul que enchem os olhos. O nativo de Itacaré é gente boa e atencioso. Gringo há aos montes, principalmente israelenses. Há até cardápios, cartazes e luminosos no idioma deles. Não consegui descobrir o porquê.
No dia seguinte eu fui para Barra Grande, na Península de Maraú, a última parte da minha viagem. Reservei cinco dias pra ficar lá, ao invés do passeio de um dia geralmente feito por quem está em Itacaré. Foi a melhor decisão que tomei. Barra Grande foi o ponto alto da viagem.
Peguei um ônibus de Itacaré até Camamu, de onde fui de lancha rápida (25 min) até Barra Grande. Chegando lá, fui direto para a pousada Galeão Santanna, que havia me passado um preço de diária tão inacreditável (R$45,00) que eu levei o email como prova para o caso de virem com outra conversa. No caminho fui me deslumbrando com a paisagem verde do vilarejo, rodeado por uma grande área de mata atlântica. Muitas árvores nas ruas, praças, casas. Os bares, restaurantes e pousadas também cultivam muitas plantas, alguns até de maneira ornamental. A palavra certa para o vilarejo seria “bucólico”.
 
Bom, a pousada era excelente. Nova, confortável, com jardins e árvores, gazebo para leitura, uma sala de estar praiana. Incluso ainda um café da manhã digno de nota: cuzcuz de tapioca, bolinho de chuva de tapioca, farofa doce de coco ralado com inhame, pastelzinho de siri, bolos cremosos, ovos mexidos, bacon, salada de frutas, sucos regionais, etc. Comi pra caralho!!!
Em Barra Grande, a praia de “centro”, onde fica o cais (que na maioria das cidades praianas é suja e contaminada) é de águas verde-esmeralda e cristalinas. Andando por essa praia você chega à Ponta do Mutá, onde se aprecia o pôr-do-sol de dentro das águas mornas e tranqüilas. Todos os dias eu ia lá para ver o sol se pôr, pra depois ver surgir as primeiras estrelas e a lua, contra o céu ainda azul.






Fiz também o passeio das 4 ilhas. Se a pessoa não tiver muito tempo pra ficar em BG é melhor não fazer. São dois lugares para tomar banho, uma ilha só pra visita e outra para almoçar. No melhor lugar você fica pouco mais do que meia hora. Sei lá, achei dispensável.
Mas o melhor dia foi, sem dúvida, quando eu aluguei um quadriciclo e cobri 40 km de praias. Antes de qualquer coisa, aí vai uma informação importante: quadriciclo é perigoso pra caramba. Tem grande potência e as manobras não são tão fáceis como em uma moto; aprende fácil, mas tratá-lo como um brinquedo pode trazer sérias conseqüências. Com o desenrolar do relato vocês vão entender o porquê.
Praia do Cassange
 A princípio, íamos apenas eu, a Ana e a Karina, que também estavam na pousada. Acabou que saímos em três quadriciclos: eu fui sozinho no meu, no outro foi um cara recém-chegado levando a Ana e no terceiro ia um guia levando a Karina. Não havia necessidade de guia, mas as meninas não haviam se dado muito bem com o quadriciclo e preferiram contratar um.
Eu saí mais cedo, porque queria fazer o mergulho nas piscinas naturais em Taipu de Fora; a melhor condição é na maré baixa, que tem hora para começar e terminar. Nas piscinas, me distanciei dos locais onde havia mais pessoas e fui presenteado com uma experiência ímpar: fui envolvido por um cardume enorme, peixe pra tudo quanto é lado, a perder de vista. Fiquei uns 10 minutos “viajando” ali, mergulhando no meio do cardume e vendo como ele se abria e se recompunha com tamanha rapidez e precisão. Depois me encontrei com o pessoal e seguimos para a próxima parada: Praia e Lagoa do Cassange. Ir com o guia foi essencial nessa parte, porque seguimos por uma trilha off-road pelo meio da mata atlântica, e não pela estrada principal, o que foi bem mais legal.
Piscinas de Taipu de Fora

Taipu de Fora
Separadas por uma faixa de terra de, no máximo, 150 metros, a Praia e a Lagoa do Cassange formam um conjunto paisagístico espetacular. No ponto mais alto dessa faixa de terra, toda ela cheia de enormes coqueiros, você olha para um lado e avista uma lagoa enorme formada pela água da chuva, daí você olha para o outro lado e vê a praia. Bom lugar para fazer um 360º com a filmadora. Só não foi perfeito porque o cara que dirigia o quadriciclo com a Ana bateu no meu, que estava parado, por andar muito colado e frear em cima. Mas isso foi apenas um pequeno susto, comparado ao que estava por vir.
Seguimos para a praia de Algodões, pela estrada de terra, e já no início o cara me ultrapassou acelerando bastante. Acabou que, em um “retão”, ele perdeu o controle e saiu pela margem da estrada, entrando no meio do mato (uns 0,5m de desnível) a uns 40 km/h. Literalmente voaram. Tivemos que levantar o quadriciclo para retirar a Ana debaixo. Daí o cara começou a sentir uma dor intensa na coluna. Deitamos ele na estrada. Por sorte havia médico e enfermeira de plantão na região, e uma ambulância também. Ele foi levado até Ilhéus para radiografia, mas não deu nada, ainda bem!!
Bom, situação resolvida, resolvi continuar a viagem até a última praia, a de Algodões. Lá, encontrei um maluco que havia saído 07h00 de Itacaré, caminhando, durante o dia, por 30 km de praias seqüenciais até chegar a Algodões, onde ele ia dormir, para no outro dia completar os 15 km que faltavam para chegar até Barra Grande. Pelo que eu conversei com ele, tem muita gente que faz isso.
Bom, é isso aí! Essa foi a minha viagem pelo sul da Bahia.

Esse relato também existe no seguinte endereço:
https://steemit.com/pt/@juniordionesio/relato-de-viagem-itacare-linda-praias-no-sul-da-bahia-brasil

sexta-feira, 30 de março de 2012

UMA LONGA JORNADA

           Grosso modo, o futebol é um esporte onde 22 jogadores, espalhados por um campo de 80m x 100m, correm atrás de uma bola com o objetivo de lançá-la ao gol adversário. Fazem isso por 90 minutos, divididos em dois tempos de 45 minutos. Pergunta: como foi definido o tempo de 90 minutos para uma partida de futebol? Como foi determinado esse tempo limite, quando o desgaste começa a comprometer a qualidade do espetáculo?
Procurei na net e não achei nenhuma explicação, apenas a de que tal regra de tempo foi estabelecida em 1875, e que um jogador corre entre 9 e 11 quilômetros durante uma partida. Penso que, em 1875, não havia estatísticas ou cálculos a serem considerados para essa conta, o que me leva a crer que a decisão foi na base do “achômetro” ou algo parecido.
Bom, eu comecei com essa conversa para fazer uma analogia entre o futebol e a jornada de trabalho do capitalismo. A Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 destaca que “Todo homem tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.” A questão é: o que seria uma limitação razoável das horas de trabalho? Que jornada é essa que proporcionaria suficiente repouso e lazer para termos qualidade de vida no século XXI? Que limite seria esse, quando o desgaste começa a comprometer a qualidade de vida?
            Na Revolução Industrial, a submissão às extenuantes, degradantes e humilhantes condições de trabalho era sustentada pela fome, pela necessidade de bancar a própria sobrevivência, ou a de seus filhos, como foi o caso em Os Miseráveis. Nesses guetos pré-industriais, muitos morriam ou se prejudicavam ao extremo em jornadas laborais de dezesseis, quase sempre dezoito, horas de trabalho, em ambientes insalubres ao extremo e com alto índice de acidentes fatais, e a vida, por muito tempo, e de muitas pessoas, em essência tornou-se isso.
Então, seqüenciais manifestações de revolta, durante os séculos XIX e XX, quando muitos foram punidos com enforcamento ou prisão perpétua, forçaram a redução desse quadro às 44 horas semanais atuais (aproximadamente oito horas e trinta minutos por dia).
Mas ter havido redução significativa não indica que estejamos em um bom patamar. Mesmo porque, à jornada de trabalho, na vivência real da experiência, somam-se os tempos de locomoção (ida e volta) mais o horário de refeição. No mínimo, são mais três horas “amarrado” à empresa. Nas cidades grandes essa conta aumenta. Ou seja, quase metade de seu dia, onde oito horas você dorme (ou pelo menos deveria dormir), você passa a serviço da empresa. Outro parâmetro que impacta nessa conta é a qualidade do tempo passado nessas horas trabalhadas; ou seja, desafios constantes e inatingíveis, pressão intensa por produção, desrespeito aos limites e características pessoais, imposição de estruturas organizacionais engessadas, cobranças desmedidas quanto ao resultado dos trabalhos, assédio moral dos mais diversos tipos, tudo isso pode transformar a jornada de trabalho em um longo e extenuante calvário diário.
Com a redução da jornada, talvez tenhamos apenas saído de uma situação insuportável, sustentada por um sistema de trabalho cruel e desumano, para outra suportável, mas com sérias ressalvas, sendo estas cada vez mais notáveis. Saímos do desespero da fogueira para o desconforto do asfalto quente, do inaceitável para o ruim. Tenho dificuldades em me contentar com isso.
Nas quatro horas livres que temos por dia, precisamos estudar, praticar esportes, fazer compras no supermercado, preparar a comida, lavar a louça, cuidar da casa, dar atenção aos filhos, ir ao médico, fazer exames, e, se sobrar algum tempo, descansar. Às vezes, até se tem a impressão de que as jornadas se emendam, dependendo do horário que se chega em casa, quando o intervalo entre elas não é preenchido pelo descanso necessário.
Muitas pessoas saem de casa com o dia ainda escuro e só retornam com o dia já escuro. Pais pouco tempo têm para seus filhos, casais pouco tempo têm para conversar e conviver. Isso sem falar no fenômeno da compensação da ausência, quando pais tentam, através de presentes e mimos, diminuir as conseqüências de sua ausência no dia-a-dia dos filhos, sem entender que o convívio familiar é fundamental para a criação de valores e formação da personalidade. Há também os filhos que entendem a ausência dos pais como rejeição, o que pode criar um terreno propício para o desenvolvimento de uma personalidade com sérios problemas de relacionamentos. Uma pesquisa realizada na Inglaterra revela que, para tentar compensar sua ausência, muitos pais chegam a gastar, por ano, o equivalente a cerca de R$ 5,6 mil. A mesma pesquisa diz que longas jornadas de trabalho são o principal motivo dado para a falta de tempo para a família.
Fazer vista grossa para os erros do filho, realizar todos as suas vontades, nunca dizer “não” para os seus desejos, são comportamentos dos pais que estão criando toda uma geração de “reizinhos” e “príncipes”, cuja noção de coletividade e convívio social está sendo distorcida por uma postura ególatra alimentada justamente por essa omissão dos pais. Quem já não viu uma charge que mostra, antigamente, a professora e os pais questionando o filho sobre a nota baixa e, hoje em dia, o filho e os pais questionando a professora pela nota baixa? E quando essas crianças se tornarem parte da população produtiva do país, quando forem elas a tomarem as decisões e escolhas que darão um rumo ao país, e então, como será?
Além disso, os números envolvendo afastamentos no trabalho relacionados a stress e depressão vêm aumentando significativamente. Em uma recente pesquisa, mais da metade dos entrevistados declararam não estarem satisfeitos com o seu trabalho. Isso sem falar naqueles que estão sempre no limite, mas que sequer cogitam em reconhecer o fato; ninguém os avisou que era permitido ficar descontente, que podiam reclamar, que há, sim, um limite para sua disponibilidade e disposição em atender as demandas dessa modernidade acelerada. Mas a obrigação de sempre satisfazer as expectativas da sociedade atropela o homem moderno. Adaptamo-nos fielmente a esse modelo de trabalho e aceitamos prontamente suas condições. Tenho pra mim que adaptar-se a algo que não está bom é diminuir drasticamente as chances de que algum dia aquilo mude.
Bom, fica aqui a minha bandeira, ou melhor, finco aqui a minha bandeira: Trinta horas semanais. Seis horas por dia.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Carnavais de ontem e de hoje


Bom, então acabou o carnaval! Acabou o squindolêlê, o ziriguidum e o telecoteco! Fico triste pelo feriado, não pela festa. Desde que me casei, a festa do carnaval (pra mim sinônimo de azaração) perdeu o sentido. Nunca curti dançar ou sambar, quer dizer, fazia isso apenas como uma dança do acasalamento, como um método de aproximação do alvo. Periscópio levantado (duplo sentido), eu observava secretamente a “vítima” enquanto me aproximava lentamente, submerso e escondido pelos mares turbulentos da multidão. Quando ela se dava conta do que estava acontecendo, já era tarde demais . . . . que dizer, só não era tarde demais pra um NÃO caprichado, bem na minha cara. Na verdade, isso acontecia com maior freqüência do que eu, em minha ingenuidade otimista, esperava. Mas, mesmo assim, entre mortos e feridos, entre poucas conquistas e muitos “tocos”, no final acabava valendo à pena. Um único sucesso compensava as derrotas. Era essa a crença que me fazia seguir em frente. Eu era um guerreiro!! 

Bom, como eu disse, a “festa” do carnaval perdeu o sentido. Mas o feriado não! Oportunidade, cantada em verso e prosa, para descansar; se possível, uma overdose de descanso. Nesse ano, ainda dei uma esticada até Ubatuba, em um famoso “bate e volta”, e por lá “vagabundeei” por um dia inteiro, acompanhado pela única pessoa capaz de acabar com qualquer arrependimento meu por não mais participar da festa: minha esposa. Com ela, a cada ano, eu curto o melhor dos carnavais, seja em casa, na praia ou no baile (onde eu não sou um guerreiro, mas apenas um homem que amadurece seu amor ao lado de sua mulher).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Matrix: Bem-vindo ao deserto do real.


Estou terminando de ler esse livro, pela segunda vez. Porquê? Bom, o livro é bastante rico em informações e complexo em suas lucubrações. São 22 ensaios filosóficos, escritos por acadêmicos de todo o mundo, sobre as questões filosóficas levantadas pelo filme Matrix (o primeiro, e que deveria ter sido o único). É interessante reler porque há muito para se absorver.
A linguagem, apesar de não ser inteiramente acadêmica, é filosófica, o que implica sequências longas de raciocínio cujo entendimento exige concentração e paciência. Mas vale muito a pena se entregar a esse exercício, é como se você desse uma revolvida na sua mente, misturando o que está no fundo com o que está na superfície. Metafísica, ética, estética, religião, filosofia da mente, múltiplas aparências da realidade, tudo isso é analisado pelos filósofos tendo como pano de fundo e referência a história de Neo e sua turma. Como eu já disse, o processo de raciocínio na filosofia vai fundo e por caminhos muitas vezes tortuosos; não ficar preso à sua própria maneira de raciocinar é uma das coisas que se percebe ser importante para facilitar o acesso a um entendimento mais aprofundado do livro.
O livro faz uma viagem pela história do pensamento filosófico humano, desde Platão e Sócrates, passando por Descartes e Kant, resvalando levemente em Karl Marx,  Dostoievski e Sartre, até chegar a alguns filósofos modernos, estabelecendo relações entre esses pensamentos e as questões levantadas pelo filme. Curiosamente, entre os modernos, há uma filósofa feminista que desce a lenha no filme, considerado por ela extremamente machista. Segundo ela, Morpheus é o típico líder patriarcal, Neo é o Escolhido, o fodão, o herói salvador, enquanto Trinity é a “gatinha” hacker, sempre à disposição para ajudar a “causa”, mas de maneira subserviente, secundária e apenas complementar.  Nem o Oráculo escapa: para a filósofa ele é “uma negra com o discernimento e sabedoria de uma sábia tribal”.
As citações religiosas do filme também são diversas, principalmente com referência ao Cristianismo e ao Budismo. Temas como messianismo, sacrifício para o bem coletivo, a ilusão da realidade, a realidade moldada pela mente, o despertar da ilusão como fonte de libertação, o desejo e o apego como armadilhas para a mente. Isso sem falar na ressurreição de Neo, a traição de Cypher, a cidade de Zion (um nome poético e religioso de Jerusalém, no antigo testamento), a busca pelo reencarnado (budismo) e muito mais.
O livro não traz nenhuma proposta quanto à busca pela existência ou compreensão de uma realidade mais “pura”, “original”, “aquela que existiria se tirássemos todas as camadas de ilusão".São as várias maneiras de se pensar e absorver a realidade que dominam os ensaios.
Muito é falado também sobre a sedução que uma realidade virtual positivamente elaborada, criada para satisfazer uma vida hedonista, teria sobre a realidade propriamente dita, em uma possível escolha sobre em qual das duas você gostaria de viver. Cypher, por exemplo, depois de nove anos pastando no mundo real, decidiu se refugiar em uma vida feliz e prazerosa dentro da Matriz. Para isso precisava matar e mesmo assim ele continuou disposto. Alguns ensaios apostam que, se fosse uma escolha que não envolvesse um assassinato, muitos escolheriam o mundo virtual a uma vida sem atrativos. É claro que não dá para prever se e quando seríamos capazes de produzir máquinas senscientes, e se e quando essas máquinas senscientes alcançariam a tecnologia necessária para induzir a mente humana a tão real percepção do mundo mesmo estando dentro de uma ilusão.   
P.S – O último ensaio é um saco. Linguagem e raciocínio alienígenas. Foram pingos de compreensão em um oceano onde eu só boiava. Escrito para acadêmicos.