terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

É NÓIS NA EUROPA - PARTE 3 (REP. TCHECA)

Chegamos a Praga perto da meia-noite, depois de cinco horas no aeroporto de Frankfurt esperando a conexão. Já sabendo que iríamos chegar “podres” e “detonados” e que o transporte público nesse horário iria ser complicado, deixei reservado um transfer do aeroporto até o Miles Hotel, perto da Praça Venceslau ( ou Vaclavské Namésti, como eles dizem por lá). Um senhor nos aguardava no desembarque, segurando uma placa com o meu nome. A percepção de que havíamos entrado em um universo lingüístico radicalmente diferente de nossas raízes latinas veio quando, enquanto eu usava o VTM para sacar coroas thecas no saguão do aeroporto, nosso motorista, com gestos, perguntou à minha mulher quem era o Júnior, eu ou ela . . .
A expectativa sobre Praga era enorme. Era talvez o lugar que eu mais queria conhecer de toda a viagem. Já tinha o mapa do centro histórico na minha cabeça, conhecia pormenores da história da cidade e sabia as direções de todos os monumentos.
A escolha do hotel mostrou-se bastante acertada. O Hotel Miles fica a, no máximo, cinco minutos de caminhada da Praça Velha, no coração de Praga (pelo mapa parecia mais longe, mas é muito, muito perto!). Tem supermercado bem em frente, vários pubs ao redor, o movimento non-stop da Praça Venceslau e a deliciosa comida de rua tcheca nas barracas espalhadas pela praça. Ficamos em um quarto privado com banheiro compartilhado (em Praga, quarto com banheiro privado é muito caro!). Tudo é muito limpo, organizado, e o staff é bastante amigável e prestativo. Cheguei a trocar euro por coroa tcheca lá, e a taxa de câmbio foi a melhor que encontrei em Praga.
Acordamos um pouco mais tarde no dia seguinte. Descemos do hotel e vimos que realmente estávamos praticamente na Praça Venceslau. As ruas lotadas nos mostravam que Praga é turismo o dia inteiro, o ano inteiro, com especial menção aos asiáticos, que chegam à cidade aos borbotões e em grandes grupos: casamentos de asiáticos nós vimos uns quinze, com direito a carruagens e toda a pompa.
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Bom, antes de qualquer atividade, paramos em uma lanchonete para comer um kebabizinho suculento. Café da manhã no bucho e seguimos praticamente em linha reta até desembocarmos na Praça da Cidade Velha. A torre do relógio astronômico com a Igreja de Nossa Senhora Diante de Tyn ao fundo é a foto a ser tirada.
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O nome da igreja vem de um mercado a céu aberto que existia na época medieval, chamado Tyn. Outra curiosidade da igreja é que sua porta de entrada não é visível, sendo necessário entrar por um dos prédios renascentistas que a cercam para conseguir acessá-la. Mas toda a Praça Velha é espetacular. Os prédios que a circundam são todos muito bonitos, com detalhes arquitetônicos em profusão, paredes pintadas com arabescos rebuscados e coloridos e estátuas incrustadas nas fachadas. No centro há uma grande estátua de Jan Huss, reformista religioso do século XV, cem anos antes de Lutero, que foi queimado vivo. Há ainda muitos músicos pela praça, do jazz ao medieval, do jovem ao idoso, todos vestidos a caráter, batalhando pelo pão de cada dia.
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Já sabíamos que em quinze minutos sairia um free tour em espanhol, então ficamos esperando por ali. Foi quando deu hora cheia e começou o espetáculo do relógio astronômico. Uma multidão olha pra cima quando os sinos repicam; dois a dois, os bonecos dos 12 apóstolos desfilam pelas janelinhas sobre o relógio. Quando termina, do alto da torre, um arauto declara uma curta melodia em seu clarim; ao final, ele acena para as pessoas lá embaixo, que irrompem em aplausos e urras. De hora em hora o espetáculo se repete.
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Um argentino de ascendência tcheca seria o nosso guia no free tour, que começou na própria praça. O grupo, enorme, andava atrás e ao redor do guia, todos se esforçando para ouvi-lo em meio ao ruído de fundo da cacofonia turística (free tour não tem a dupla microfone/fone de ouvido, como eu vi em muitos tours particulares; é no gogó mesmo!). Pra nós piorava um pouco o fato de ser em espanhol e do guia precisar falar bem rápido. Como havia muitos outros grupos do tamanho do nosso, quando acontecia de se cruzarem ou dividirem o mesmo lugar a confusão era certa e a mistureba de sons desnorteante. Foi legal, aprendemos muita coisa, mas depois de uma hora decidimos abandonar o barco e seguir por conta própria.
Depois seguimos até a colina Vysehrad, um parque histórico enorme onde, reza a lenda, uma princesa antiga previu o surgimento de Praga. Vysehrad também foi uma antiga fortaleza da realeza, antes da construção do castelo de Praga. Decidimos ir a pé mesmo, o que rendeu uma boa caminhada. Mas valeu a pena; fomos margeando o rio Vltava e curtindo o visual inacreditável que é Praga ao longo de sua extensão, principalmente o Castelo de Praga na margem oposta
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No caminho, acabamos sendo os observadores de uma cena curiosa. Uma mulher atravessou a rua com o sinal de pedestres fechado para ela. Um homem freou em cima para não atropelá-la e buzinou. A mulher pegou o cigarro que fumava e jogou no pára-brisa do carro. O homem estacionou o carro em cima da calçada, saiu, e pegou a bituca. A mulher, como se não tivesse feito nada, continuou caminhando. O homem saiu correndo atrás dela até alcançá-la e jogou o cigarro em sua cara. Aí começou um bate-boca desgraçado no meio da rua. Continuamos na caminhada, certo que de havíamos acabado de presenciar uma amostra do famoso “pavio curto” dos tchecos. Mas foi a nossa única experiência nesse sentido. Ainda bem.
Demos uma parada no Claustro Emausy, do século 13, já perto de Vysehrad. O claustro conta com diversos afrescos em suas paredes, representando várias passagens bíblicas, algumas até pouco conhecidas. Os afrescos já estão um tanto quanto deteriorados (também, 700 anos!), mas você recebe na entrada um folheto explicativo com a planta baixa do claustro e números representando os afrescos que remetem a um índice explicativo de cada desenho.
Bom, do centro até Vysehrad foram quatro quilômetros de caminhada. Nesses quatro quilômetros não vimos UM prédio moderno, apenas uma sequência infindável de prédios antigos, de vários períodos da história (medieval, barroco, renascentista, rococó, etc), quando cada edifício era construído como uma obra de arte única, cheia de detalhes e caprichos arquitetônicos. Andar por Praga é isso: caminhar por quilômetros e não parar de se deslumbrar com a beleza arquitetônica da cidade.
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Entramos em Vysehrad pelo portão principal, direto no pavilhão funerário do parque, onde estão sepultados os vip’s históricos de Praga, personalidades de destaque na arte e cultura thecas. Passamos túmulo por túmulo, cada um mais impressionante e pomposo que o outro.
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Em frente, está a Igreja de São Pedro e São Paulo, com suas duas imensas torres e pedras enegrecidas pelo tempo. Como Vysehrad fica em uma colina, tem-se um visual único de Praga, com vários mirantes.
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Voltamos para o hotel, mas não sem antes passar pela Praça Venceslau e comer uma espécie de tender em uma das barracas da rua. São pedaços enormes que ficam defumando em um gira-grill; eles cortam um pedaço, pesam, e acrescentam um refogado que mistura batata, repolho e bacon. Bom pra caralho!! Isso sem falar nas barracas de salsichas, dos mais diversos tipos.
No dia seguinte acordamos bem cedo, única maneira de curtirmos a Ponte Carlos vazia (no dia anterior ficamos assustados com o tamanho da multidão). Um dos cartões-postais de Praga, a Ponte Carlos (ou Karlúv most, como eles dizem por lá) começou a ser construída em 1357, às 5h31 do dia 9 de julho (isso mesmo, um astrônomo da época definiu o momento como ideal para a construção da obra). Na entrada, uma torre gótica enorme, o Portão da Pólvora, lindamente ornamentada com brasões e estátuas, forma o arco por onde todos passam para acessar a ponte (carros são proibidos ali). Que legal poder curtir a ponte vazia, porque ela realmente é fascinante e a multidão acaba “contaminando” o visual. Mas às 7 da manhã, com quase ninguém, você olha ao longo dos seus 520 metros de extensão e enxerga toda a sua imponência; sobre suas muradas, 30 belas estátuas barrocas a cobrem de santos e mártires, enfeitando-a de uma maneira única.
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Se você olhar para trás, da direção de onde veio, terás uma das fotos mais tiradas da Ponte Carlos, com o Portão da Pólvora em primeiro plano e os pináculos das igrejas, prédios e monumentos da Cidade Velha ao fundo.
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Ou seja, toda a ponte é uma obra de arte. Depois de passar pelo menos uma hora atravessando-a (apreciar os pormenores das estátuas ou mesmo a cidade de Praga ao redor vai levar no mínimo esse tempo), você chega ao outro lado, onde outra torre gótica também impressionante dá as boas-vindas a Malá Strana, o bairro do Castelo de Praga. Perfeita a definição que eu li em um site: é a ponte que liga o lindo ao maravilhoso. A foto ali traz outra composição incrível: a torre, com a cúpula verde da igreja de São Nicolau ao fundo, e o castelo de Praga no alto da colina.
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É o tipo de lugar onde, mesmo depois de ver tudo, você não consegue ir embora, quer olhar mais uma vez, encontrar algum detalhe que tenha passado despercebido. Mas a verdade é muito simples: a gente vai embora quando acaba, ou diminui, a sensação de deslumbramento, e isso demora pra acontecer na Ponte Carlos.
Pra chegar até o Castelo de Praga é só subida; no meio do caminho, a Igreja de São Nicolau, com sua cúpula gigantesca e muuuuito ouro em seu interior, é parada obrigatória. A subida é desgastante, mas é também compensadora; enquanto você segue pelas vielas, o visual da cidade lá embaixo vai ficando cada vez mais espetacular. É quando você entende o porquê de Praga ser conhecida como a cidade das mil torres. Já chegando próximo à entrada para o Castelo, paramos um pouco pra curtir um grupo de músicos de rua mandando ver na música tradicional tcheca.
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O Castelo de Praga é considerado, em área, o maior do mundo. Lá dentro estão o palácio real, onde vive o presidente da Rep. Tcheca, a catedral de São Vito, a Basílica de São Jorge (do ano 920) e a rua do Ouro, onde viviam os antigos alquimistas e também muitos artistas tchecos. O portão de entrada para o Castelo é conhecido como Portão dos Gigantes; sobre suas pilastras, enormes estátuas intimidam qualquer pretenso inimigo do estado tcheco: dois homens golpeando com clava e espada seus oponentes já subjugados. Uma imagem de pura crueldade que, em priscas eras, traduzia poder e controle.
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Passamos pelo portão e percebemos que as hordas de turistas já estavam presentes e a postos para invadir o castelo. Entrei na fila para comprar os bilhetes: são três rotas diferentes, cada uma dando direito a entrar em determinadas partes do castelo. Fizemos a rota B, a mais simples, e mesmo assim foram quase quatro horas pra conhecer tudo.
O primeiro lugar em que entramos foi na Catedral de São Vito, que você avista, maravilhado, de praticamente qualquer ponto de Praga. É o edifício-símbolo do Castelo de Praga (alguns acham até que a Catedral é o Castelo). Toda em estilo gótico, de pedras cor pastel enegrecidas pelo tempo, sua imponência faz qualquer turista ficar de boca aberta. Do lado de dentro, a quantidade de altares, pinturas, monumentos, estátuas é tão grande que chega até a “poluir” o visual. Os túmulos existentes, com suas lápides góticas de 800 anos atrás, são impressionantes; as lápides trazem em alto-relevo figuras ricamente vestidas e armadas, representando quem ali foi sepultado, geralmente nobres, cavaleiros, ou mesmo reis. Ou seja, no mínimo uma hora lá dentro pra conhecer tudo, devagar, curtindo cada detalhe. É claro que essa regra simplesmente parecia não fazer sentido para o turista oriental, que em sua esmagadora maioria caminhava a passos rápidos pelos corredores, sem parar para qualquer tipo de apreciação, enxergando tudo apenas através das lentes de suas máquinas fotográficas. Parecia uma competição de quem tirava mais fotos e, a julgar pelo empenho com que se dedicavam a tal tarefa, o prêmio deveria ser muito bom. Uma coisa engraçada aconteceu lá dentro: estava eu com a camisa do Fluminense quando ouvi uma voz atrás de mim perguntando, num sussuro: “você sabe quanto foi o FlaxFlu?”. Olhei pra trás e me deparei com uma mulher de meia-idade olhando ansiosamente pra mim, esperando pela resposta. “Um a zero, gol de bicicleta do Fred!”, respondi. Ela cerrou o punho e vibrou: “Ah, esse ano não tem pra ninguém. Vamos ser campeões!”. A vidente então seguiu seu caminho em silêncio.
Ainda no interior da Catedral, chama a atenção o túmulo de São João Nepomucemo. A sala que o abriga é impressionantemente decorada com pedras preciosas, afrescos e ricos ornamentos. Infelizmente não se pode entrar nela, apenas observá-la encostado na corda que impede o acesso.
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Saímos do interior da Catedral e começamos a contorná-la pelo lado de fora. De frente ela é imponente, mas quando você a vê em toda sua extensão é que se dá conta do quanto ela é grandiosa. Em uma das laterais, sobre um portal, há um mosaico dourado, enorme, conhecido como “Porta de Ouro”: é como uma jóia embelezando ainda mais uma outra jóia.
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Depois entramos no palácio, em sua parte antiga, e vimos vários brasões de famílias que, ao longo dos séculos, fizeram parte da aristocracia praguense. Algumas jóias da Coroa também estão expostas lá. Entramos também na Basílica de São Jorge, maior representante do estilo românico em Praga, que ainda possui algumas das paredes erguidas no século X, quando começou a ser construída (apesar de sua fachada ser do período barroco). Em seu interior, alguns nobres foram sepultados, incluindo Santa Ludmilla, primeira mártir cristã da Boêmia.
Na sequência visitamos a Rua Dourada, ou Beco Dourado, construída no séc. XVI, onde, reza a lenda, alguns alquimistas viveram, tentando descobrir a fórmula do ouro, daí seu nome. A rua na verdade é uma viela curta e estreita, parece mesmo um cortiço. O charme fica por conta das pequeninas casas coloridas ao longo de toda a sua extensão Quer dizer, charme enquanto atração turística no mundo contemporâneo, porque viver ali não deve ter sido fácil: as casas têm, no máximo, um quarto minúsculo e, quando muito, um cubículo pra trocar de roupa. Por sinal, estão todos mobiliados de acordo com a época em que eram habitados, e isso é bem legal, dá pra se ter uma idéia de como era o dia-a-dia das pessoas em suas casas naquele tempo.
Por último, um rolê pelos jardins do palácio, onde vários mirantes dispostos de maneira estratégica permitem “altas” fotos de Praga.
Terminada a visita ao palácio, seguimos subindo o bairro de Malá Strana, até chegarmos ao Mosteiro Strahov. O mosteiro é bonito, muito bem cuidado, mas o mais legal mesmo foi tomar as brejas que os monges fazem. Tem um restaurante lá, onde você toma vários tipos de cerveja, até aquelas que passam por processos mais rústicos e antigos, como, por exemplo, não filtrá-las. As porções de salsichas e miúdos que acompanham também são sucesso total.
Bom, cheguei a um ponto que merece especial atenção e comentários mais aprofundados: as cervejas da República Tcheca (antes, uma pausa pra limpar o canto da boca, que já começou a salivar!).
Sei lá quantas marcas provei, mas foram muitas; sei lá quantos litros tomei, mas também foram muitos.
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Quem me conhece sabe que, embora apreciador, meu limite para cerveja é muito baixo, não consigo beber muito. Em Praga, esse histórico particular não se confirmou (ainda bem!). Tomei cerveja até com sopa! Quer dizer, o que a gente chama de cerveja também poderia ser chamado de milk-shake de cevada, porque é essa a sensação que a cremosidade deixa no paladar, tão gostosa que no primeiro gole já vai metade da caneca de meio litro. Bom, as marcas são muitas e eu me senti na obrigação de provar a maior quantidade possível (eu sei que assumir compromissos nas férias não está com nada, mas desse eu não podia fugir!). É claro que tantas cervejas podem causar problemas quando não há banheiro público disponível, mas eu montei um esquema que funcionou muito bem: para ter o direito de usar o banheiro de um restaurante eu precisava consumir alguma coisa lá, ou seja, cerveja; minutos depois, de volta às ruas, aquela cerveja chegava na bexiga e eu acabava tendo que procurar outro restaurante para usar o banheiro . . . e para tanto eu precisava comprar mais cerveja, o que me levaria mais tarde à bexiga cheia e a mais um restaurante, onde eu teria que beber mais uma cerveja pra poder usar o banheiro . . . E foi nesse alegre e animado ciclo vicioso que eu decidi permanecer, chafurdando e submergindo completamente no ouro líquido tcheco. Não bebi cerveja em latinha, preferindo sempre a cerveja fresca tirada da máquina de chopp. E os preços eram altamente convidativos: de R$ 3 a R$ 4 a caneca de meio litro! Agora, se você fosse beber essa cerveja em um barco-restaurante, todo chique, ancorado às margens do rio Vltava, com um salão com paredes de vidro e vista para o Castelo de Praga, bom, aí você já pagaria . . . uns R$ 5!! Muito barato!! E os petiscos acompanham o bom preço! Comemos e bebemos pra caramba!!
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Por último, uma imagem curiosa que justifica a liderança da República Tcheca no ranking mundial de consumo de cerveja por pessoa: um caminhão-tanque abastecendo de cerveja um restaurante.
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Bom, esses foram os nossos dois primeiros dias na República Tcheca. Mas ainda ficou muita coisa pra contar . . .