quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

É NÓIS NA EUROPA!! PARTE 1

Cinco anos foi mais ou menos o tempo que esperamos para conseguir realizar essa viagem. A Jô tinha sérios problemas para conseguir tirar 30 dias de férias e esse era um ponto inegociável nos nossos planos: a Europa merecia, e exigia, de 20 a 30 dias. Nesse entremeio fizemos muitas viagens, de no máximo dez dias, pelo Brasil e pela América do Sul. Mas a viagem pra Europa nunca saiu da nossa cabeça, pelo contrário, todo esse tempo apenas tornou-a ainda mais desejada. Então, eis que a oportunidade se fez carne; sem perder tempo, iniciamos os preparativos.
Decidimos viajar entre setembro e outubro; além de ser baixa temporada (o que, em algumas cidades, não fez tanta diferença, é turismo o ano todo), também é meia estação, nem quente, nem frio.  De qualquer modo, mesmo sendo baixa temporada, vale a regra de que quanto antes as reservas forem feitas, menor será o preço.
Bom, então tínhamos três meses de preparação antes da data da viagem. Optamos por conhecer três regiões, de três países; a tentação de “entupir” nossa viagem visitando mais países foi posta de lado à medida que percebíamos que corríamos o risco de passar mais tempo se “transportando” pra lá e pra cá do que curtindo os lugares, que também não seriam devidamente “curtidos” já que sempre teríamos horários e prazos curtos a cumprir. E isso não é programa pra quem está de férias! Com dor no coração, tiramos Grã-Bretanha e Itália da viagem.
Olha, vou contar uma coisa, os três meses demoraram pra passar, viu! O lado bom é que a viagem fica bem planejada, dá tempo de estudar todas as opções e fazer as melhores escolhas. Nesse meio tempo não joguei futebol e fiquei até meio hipocondríaco, tomando alguns remédios preventivamente, pois não queria de maneira nenhuma pôr a viagem em risco com alguma perna quebrada, infecção, inflamação, ou qualquer outra coisa que o valha.
Sobre o itinerário, chegaríamos à Europa pela França, descendo em Toulouse. Dali, chegaríamos a Lavaur, onde ficaríamos hospedados na casa dos pais do Nicolas, um amigo francês já completamente abrasileirado depois de 13 anos de vida em terras tupiniquins. Abro aqui um parêntese para contar uma história que está diretamente ligada a essa viagem.
Eu sempre fui um cara que nunca fez muita questão de viajar, no máximo visitar parentes nos estados mais próximos. Aí então surge o Nicolas. Em nossas conversas etílicas, ele começou a me contar de todas as viagens que já havia feito, principalmente pela América do Sul. Isso, de alguma maneira, me despertou, e, aos poucos, fui percebendo que aquela era uma lacuna na minha vida que precisava ser preenchida. Então, comecei a viajar.
A escolha pela França começou pela vontade de conhecer Carcassone. Somou-se a isso a especial condição de podermos conhecer as cidades da região com dois “guias” de luxo: Marie e Nicolas (que estava lá visitando os pais), irmãos, nascidos e criados em Lavaur, na região dos Médios-Pirineus. Acabou sendo muito melhor do que a gente imaginava.
Chegamos a Toulouse às 17h00, mas já havíamos feito a imigração em Amsterdã. Lá, o oficial começou pedindo pra ver a passagem de volta e depois perguntou se tínhamos onde ficar (no que eu apresentei TODAS as reservas). Sem qualquer intenção, perguntou se éramos casados, ao que eu prontamente tirei da minha pastinha uma cópia da nossa certidão de casamento. Ele, estranhando, perguntou o porquê de eu ter levado tantos documentos. Eu respondi: “Eu espero ter comigo qualquer tipo de documento que você me peça”. Dando um sorriso e vendo que não conseguiria me “pegar” de maneira nenhuma, ele carimbou os passaportes e desejou-nos uma boa estadia.
No aeroporto de Toulouse estavam o Nicolas e a Marie nos esperando. Fomos direto para a casa dos pais deles, um lindo sítio na zona rural de Lavaur, uma pequena cidade com uma história quase milenar, sendo um dos berços do povo cátaro. Esse povo antigo foi dizimado cruelmente pela Igreja no século 13, na única cruzada da história direcionada contra um povo também cristão, quando optaram por viver um cristianismo primitivo em detrimento da opulência e sede de poder da Igreja.
Chegando no sítio dos Brien, fomos recebidos como reis: Nicolas informou que a sua mãe, Danielle, tinha feito um menu especial com pratos típicos do sul da França para os dias que passaríamos lá. E assim foi. Pratos dos mais saborosos (tanto para o paladar quanto para os olhos) desfilavam diante de nós, nos deixando em uma espécie de êxtase gastronômico. Entradas, saladas, sobremesas, queijos, carnes, frutos do mar, patês, cogumelos, tudo isso regado a muito vinho e pastis (uma forte bebida típica – 45ºGL - à base de anis. Por ser muito concentrada, você dilui com água gelada, quando a bebida, antes transparente, adquire um aspecto leitoso, como em uma experiência de laboratório de química). Começávamos a jantar às 8 e terminávamos quase 10 da noite. Sabedora do meu desejo de provar novas iguarias, Dona Danielle nos preparou um prato que acabou sendo o ponto alto de todas as surpresas gastronômicas que a viagem nos reservou: os famigerados escargots. “Colhidos” no próprio sítio de nossa anfitriã, esses moluscos gastrópodes terrestres, ou lesmas, ou caracóis, exigem um dia inteiro de preparo. Servidos na própria concha, temperados em uma mistura de manteiga, alho e cebolinha, eles são deliciosos! Nos fartamos e recomendamos a quem quer que queira um dia provar!
Bom, acordamos no dia seguinte e seguimos para o nosso principal objetivo: Carcassone. Antes, paramos para comer outro prato típico francês, o Cassoulet, em Castelnaudary, que orgulhosamente exibe placas pelas ruas outorgando-lhe o título de Capital Nacional do Cassoulet, que é um cozido de feijão branco com carnes e lingüiças diversas. Terminado o delicioso rango, seguimos para Carcassone.
O tempo não estava dos melhores, mas isso contribuía para criar a atmosfera lúgubre e sinistra que se espera de uma cidade medieval. Na verdade, Carcassone é a cidade medieval mais bem preservada de toda a Europa. Toda ela é cercada por duas gigantescas muralhas, separadas por um fosso e salpicadas em toda a extensão da cidadela por torres pontiagudas. Uma terceira muralha cerca o castelo, já na parte interna da cidadela. Passando pelo portão principal você entra pelas ruas labirínticas e já se deslumbra com a paisagem urbana medieval da cidadela (é claro que é necessário abstrair o impacto visual negativo causado pela quantidade de lojinhas e comércios em geral, mas não é nada que estrague a experiência). Carcassone é um local bastante turístico, por isso as ruas centrais ficam “apinhocadas” de gente; mas também é um lugar enorme e as áreas próximas às muralhas externas são um convite a caminhadas praticamente solitárias, desvendando os pormenores da arquitetura medieval do lugar.
As casas e prédios, todos de pedra, tem os mais variados formatos e se encaixam uns nos outros nas mais diferentes formas. O passeio pelo interior do castelo é pago, mas vale à pena porque se conhece a estrutura interna de um lugar construído para um único propósito: defesa. Na bilheteria, o atendente, vendo minha camisa do Brasil, agradeceu em português e sacudiu o punho, quase gritando: “Neymar . . . the best!!” . . .
Bom, voltando ao que interessa, dentro do castelo há também objetos medievais expostos, estátuas, lápides de túmulos antigos e afrescos seculares (sem restauração, do jeito que eu gosto). É possível ainda caminhar sobre as muralhas internas, entrando nas torres e tirando fotos incríveis da cidadela ao redor. 
Por último, entramos na Basílica de Saint-Nazaire e Saint-Celse, construída no século 12. Essa igreja, assim como a maioria das igrejas das cidades medievais, fica “espremida” pelas demais construções ao redor, quase não havendo espaço entre suas paredes e as dos prédios que a circundam, compondo um visual arquitetônico fantástico! A única coisa que não conseguimos ver em Carcassone foi a cidadela iluminada à noite, que dizem ser deslumbrante. E por falar em Carcassone à noite, o Nicolas me contou que, quando era adolescente, ele passou uns dias na casa de um amigo que morava na Carcassone moderna. Sendo “local”, o cara conhecia uma maneira de entrar escondido no Castelo, à noite. Ele classificou a experiência como “inesquecivelmente assustadora”.
Fim do dia e voltamos a Lavaur, onde fomos recebidos pelo aroma inebriante do banquete que estava sendo preparado para aquela noite. E foi quando eu cometi minha primeira gafe em terras européias: na mesa, me servi do vinho antes do anfitrião, no caso o Sr. André, que apenas riu e, dando sequência à tradição, provou o vinho, aprovando-o e então o servindo aos seus convivas.
Que fique registrado que, em todos os passeios que fizemos, a Marie sempre foi a nossa motorista de todas as horas. Praticamente se abstendo dos prazeres do álcool, o que seria impossível para o Nicolas, ela nos levou a todos os lugares em que pretendíamos ir nos Médios-Pirineus. Sendo assim, no dia seguinte partimos cedinho na direção norte.
Cordes sur Ciel é praticamente uma aldeia medieval, construída no alto de uma colina, no século 13, como uma fortificação. A primeira coisa que nos chamou a atenção foi a quase ausência de turistas ( o que foi muito bom!!). Cordes nem de longe tem a fama de Carcassone, e praticamente só encontramos poucos turistas franceses pela cidade. E as ruas vazias ajudam a imaginação a rolar mais solta, a atmosfera secular do lugar se faz presente e você prazerosamente se entrega a ela. Dá pra imaginar cavalos subindo com seus cavaleiros pelos estreitos e íngremes caminhos de pedras, passando sob os muitos portais seculares em forma de arco que conduzem o visitante pelas ruelas da aldeia, subindo até o topo da colina. Tudo é muito bonito, bucólico, e ao mesmo tempo lúgubre, soturno, as lindas cores sombrias das coisas medievais. Vi algumas casinhas que só podiam ser de hobbits. Vi outras que pareciam assombradas. A dica é a mesma de Carcassone: perca-se pelo lugar, maior diversão não há.
Depois de almoçarmos em Cordes (10 euros a refeição, comida gostosa, prato com visual de alta gastronomia, o que, surpreendentemente, não significou pouca comida.), seguimos em direção a Najac, outra cidade fora dos circuitos tradicionais de turismo. Lá, a grande atração são as ruínas de um castelo no alto da cidade, a Fortaleza Real de Najac, que começou a ser construída no século 10. Chegando lá, começamos a caminhada para subir até o castelo, atravessando toda a vila medieval, com suas construções de pedra escurecidas pelos séculos. 
Depois de pagarmos para entrar no castelo (4 euros), subimos por uma rampa que nos levou até uma pequena porta, única entrada para o interior da fortaleza. Por dentro, o castelo não tem teto ou divisões; sobraram as paredes enormes, duas torres, um calabouço (onde foram aprisionados cavaleiros templários, quando da decadência da Ordem religiosa) e restos de grandes escadarias ainda fixados às paredes. Sua destruição foi na verdade uma desconstrução, quando, em guerras futuras, Najac foi atacada e seus habitantes usaram as pedras do castelo para reconstruir partes da cidade. Em uma das torres você sobe por uma escada espiralada até o topo, onde se tem uma vista espetacular da cidade e das florestas ao redor. Quando você desce, na metade do caminho, totalmente escondida, existe uma portinhola, que leva você a uma espécie de corredor secreto, escondido dentro das paredes, que liga aquela torre à torre romana no lado oposto. Pô, andar por uma passagem secreta dentro de um castelo!! Realizei um sonho! Depois descemos até a vila e fomos à Igreja de São João, do século 13, quando os moradores de Najac foram obrigados a construí-la como uma punição por suas crenças cátaras.
Bom, até esse momento as coisas estavam bastante fáceis para nós. Tínhamos “intérpretes” particulares, só passeávamos de carro, refeições dionisíacas todas as noites, e por aí vai. Mas no dia seguinte nós iríamos mais para o sul da França, só eu e a Jô, conhecer as cidades fundadas pelos romanos e suas construções bilenares (ops, essa palavra não existe, mas tá valendo, é o mesmo que milenar, só que o dobro). Próximo destino: Nîmes.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O Evangelho segundo Jesus Cristo - Saramago


Ainda não havia lido Saramago. Dele só sabia que era excelente escritor, conhecia alguns de seus livros, e que havia ganhado o Prêmio Nobel. Ah!, e , é claro, que era português. O primeiro contato com a sua prosa veio agora, e ela me surpreendeu, ainda que eu já esperasse por isso. Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo ele traz aos seus leitores uma imagem detalhada dos aspectos da vida do homem comum daquela época; uma visão das pequenas coisas, dos pequenos pensamentos que compunham o cotidiano daqueles que viviam miseravelmente nas aldeias ao redor de Jerusalém.

 
Nessa versão da história, os aspectos divinos dos personagens dão lugar à franqueza de suas manifestações puramente humanas, trazendo em seu bojo todos os traços que compõem nossa frágil estrutura. Introspecções e reflexões solitárias dão a tônica da relação entre os personagens e o mundo que os rodeia, com suas pessoas, governos, regras, direitos, deveres e dogmas religiosos. Percebem-se claramente os pensamentos do homem comum moldados pelos recursos mentais pertencentes à sociedade daquela época.
Questões como culpa, submissão ao sagrado, obediência à ordem social, resignação diante do divino, são devidamente tratadas no livro como as raízes formadoras de um estilo de vida que tira do ser humano, quase que totalmente, o direito de decidir sobre as mínimas e máximas questões de sua própria vida. Além disso, o povo hebreu trazia sobre sua cabeça o olhar perscrutador e dominante de dois mil e quinhentos anos de consolidação de uma mentalidade religiosa intrusiva e exigente, agravado ainda mais com a presença de um povo invasor, os romanos.
Jesus, ao perder o pai, aos 13 anos, decide sair de casa em busca de redenção e para tentar compreender melhor o episódio do massacre das crianças por Herodes, onde culpa seu pai e a si mesmo pela infeliz sorte que assaltou na calada da noite as desavisadas casas de Belém, uma espécie de síndrome do único sobrevivente. Dai em diante, de maneira egoísta, própria também da idade, ele abandona a mãe e os irmãos e sai em uma busca solitária pelas respostas que poderiam trazer-lhe paz. Jesus mostra-se arredio e errante, em nada desconfia de sua ascendência divina e mostra pouco das características que o faria, nos séculos seguintes, ser seguido por bilhões de pessoas. O Jesus aqui em nada lembra a sua contraparte bíblica.
Nessa fase de sua vida ele vive e trabalha alguns anos com o Pastor, uma figura misteriosa, um anjo/demônio que o próprio Deus recusa-se a identificá-lo. Tendo feito inclusive o papel de Anunciador na concepção natural do Cristo, ele esteve presente em vários momentos da vida do hebreu, sabia cada detalhe de sua vida. Suas palavras diretas e seu jeito de falar isento de qualquer filtro moral constrangiam Jesus e deixavam-no confuso. Mas ele não conseguia afastar-se da retórica questionadora e cativante do Pastor, que punha por terra e fazia pouco caso dos deveres religiosos dos judeus, proclamados por Jesus como a regra para uma vida una com Deus, e que ficava contrariado quando o via em tal desacordo com as leis. Era quando perdia a paciência e tentava convencê-lo do contrário, geralmente sem sucesso, e nessas discussões o Pastor sempre dava um nó nos pensamentos conservadores e pudicos do Cristo.
Jesus então encontra Deus pela primeira vez, em um redemoinho de fumaça no meio do deserto, quando então fica sabendo que está em seus planos divinos para o futuro. Ao questionar o Criador, insistentemente, sobre quais seriam tais planos, Jesus O aborrece e é dispensado; a sabedoria e o conhecimento do Cristo deveriam ser conquistados a duras penas, não havendo qualquer espécie de absorção divina das coisas que ele precisava aprender.
Caminhando sempre em direção a uma ampliação de sua percepção do mundo e da vida, ainda que sem saber, um Jesus perdido e desorientado chega finalmente à aldeia de Magdala. Lá, com os pés feridos pela caminhada através do deserto, ele é tratado e curado por uma prostituta. Maria de Magdala o recebe em sua casa e se rende a Jesus desde o primeiro momento em que o vê, proclamando sua eterna fidelidade a ele, tanto carnalmente quanto espiritualmente. É a primeira vez na história de Saramago que alguém reage a Jesus como que reconhecendo nele sua potencial divindade. Durante os dias em que permaneceu naquela casa, o Cristo abandonou o papel de julgador das aparências e conheceu a fundo o amor daquela mulher, que o amava em toda sua pureza e fragilidade. Jesus era um homem, e como um homem ele deveria viver.
Depois, Jesus retorna à sua família, que não crê em seu encontro com Deus, principalmente sua mãe. Durante toda a história a relação entre Jesus e sua mãe é tensa e frustrante. Decepcionado, ele parte no dia seguinte de volta à Magdala, onde ele e a ex-prostituta Maria se juntam para seguir viagem até as áreas de pesca. Mais tarde, a mãe de Jesus recebe a visita de um anjo que diz ser verdade o encontro de Jesus com Deus. Diz também que ela, Maria, não foi escolhida para ser a mãe do Cristo por seus dotes espirituais, mas sim porque Deus achou-a saudável e robusta, o que a deixa desconsolada; a santidade de Maria não é reconhecida no livro, a divindade de Jesus não é extensível aos pais. O próprio Deus é o Deus do Velho Testamento: ávido por cerimônias, sacrifícios e provas de devoção, provocador e insensível ao sofrimento humano. Não lembra em nada o Pai Amado do Cristo bíblico.
Ao redor do mar da Galiléia, Jesus e Maria de Magdala permaneceram por um bom tempo, e foi nessa época que se juntaram a ele seus futuros apóstolos, e também que ele realizou alguns de seus milagres, a maioria de maneira inconsciente e sem intenção. Dali sua fama se espalhou. E foi no meio daquele mar, envolvido por um denso nevoeiro, que ele, durante 40 dias e 40 noites (sentidos apenas por quem esperava às margens) reuniu-se por algumas horas em uma barca com Deus e o Diabo.
Ponto crucial do livro, o diálogo entre os três é um divisor de águas: a partir daquele momento, a vida de Jesus é direcionada inevitavelmente para o seu fim, e para o começo de sua influência na esfera futura da humanidade. Ali, Deus revelou seus planos.
Preocupado em ser adorado apenas pelo pequeno povo judeu, Deus queria, antes de qualquer coisa, expandir seus domínios a outros povos. Assim, ele decide transformar Jesus em mártir, de morte violenta, pois conhece muito bem suas crias humanas e sabe-as impressionáveis pela dor e pelo sofrimento. Jesus tenta resistir ao seu destino, mas Deus não permite tal opção, havendo uma tensão palpável entre os dois durante toda a conversa. Então Jesus, apelando para o último pedido de um condenado, pede que Deus lhe fale sobre o futuro após a sua morte. Então Deus começa a desfilar todas as mortes, guerras, injustiças e sofrimentos futuros da humanidade, como as Cruzadas e a Santa Inquisição, oriundos da palavra de Jesus e praticados em honra ao seu nome. O Cristo não se conforma com tanta crueldade e sangue derramado. De sua parte, o Diabo a todo instante lava as mãos, afirmando que todo aquele sofrimento nunca foi uma escolha sua, e que “é preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue”.
A conversa termina, Deus e o Diabo se retiram, e Jesus segue com seu destino. Dali até o seu fim na cruz tudo acontece muito rápido, como previsto e escrito. Quando se fecha o livro, a imagem de Jesus que fica na memória é a de um ser humano atormentado e solitário, alguém que não achou seu lugar no mundo, mas recebeu todo o peso dele em suas costas. Ele termina seus dias sem nenhuma fé em seu próprio sacrifício, abandonado por um Deus que o via apenas como um meio para alcançar seus ambiciosos fins.
Em seu último momento na cruz, Jesus olha para os céus e vê Deus. Lembrando de todo o sangue que será derramando no futuro em seu nome, ele diz:
- Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Meu carnaval de 1.999


A desventura toda começou às 02h00 da manhã. De malas em punho, eu, meu irmão e o Tietinha nos metemos na estrada rumo a Lambari, onde passaríamos o carnaval. Saindo cedo evitaríamos o trânsito, além do que teríamos tempo para dar uma geral na casa, gentilmente emprestada por um de nossos vizinhos de Taubaté. Tivemos sucesso quanto ao trânsito, mas chegamos cansados e resolvemos dar uma dormida antes de qualquer coisa. Mas, ainda antes disso, eu resolvi fazer uma boquinha – na viagem tinha dado uma mordida em uma coxinha comprada em um desses restaurantes de beira de estrada, que estava fria, gordurosa e mereceu o lixo. Então, saí na busca por qualquer espécie de rango.
Seis da manhã e só havia um boteco aberto. No boteco só tinha aqueles salgadinhos de saquinho sabor queijo. Os salgadinhos de saquinho eram todos de marcas desconhecidas, prováveis fabriquetas de fundo de quintal. Peguei um que tinha a Turma da Mônica estampada na embalagem, do qual com certeza o Maurício de Souza nunca ouviu falar e jamais recebeu qualquer quantia pelos direitos de comercialização. O cheiro parecia-se com o de dedos do pé em cujos vãos foi depositada generosa porção de gorgonzola esfarelado, para depois ser coberto por grossa meia de lã, trabalhando algumas horas sob sol escaldante. Comi uns três, quatro, mas depois desisti. No entanto, a taça já começava a encher.
Acordamos, demos uma geral na casa e saímos pra rua. Após um breve rolê perscrutador pela cidade, decidimos almoçar. Almoço mineiro. Arroz, feijão gordo, carne de porco e batatas fritas, tudo isso regado a dois litros de coca-cola. A taça encheu ainda mais um pouco.
Satisfeitos, continuamos a perambular, até que encontramos algo interessante para fazer: andar a cavalo. Sob sol intenso nós iniciamos a cavalgada, o corpo sacolejando ao ritmo do trote, o estômago como uma máquina de lavar roupas cheia de comida.
Por algum tempo trotamos juntos, mas depois eu fiquei pra trás, inábil como sou no trato com esse tipo de animal. Pra piorar, de uma hora pra outra ele resolveu empacar. Com o calcanhar dei umas cutucadas na barriga dele e nada! Como não havia muito tempo o ator Christopher Reeves tinha ficado tetraplégico por cair de um cavalo, achei melhor não arriscar. Desci do cavalo e, levando-o pelo cabresto, retornei caminhando lentamente, e debaixo de muito sol e calor, os cerca de três quilômetros que nos separavam da praça de onde havíamos partido.      Pra completar o papelão, ao devolver o cavalo, reclamei que o mesmo “estava com algum problema”. O homem me olhou com desconfiança e depois, dando de ombros, como quem não estava entendendo nada, chamou um moleque de uns nove anos:
- Óóóó Joãozinho, o moço aqui tá falando que o cavalo tá cum problema.
            Sem titubear, o garotinho subiu no cavalo, cutucou sua barriga levemente e saiu em desabalada carreira pelas ruas da cidade, até sumir de vista. O homem me olhava agora com expectativa, esperando pelo que eu iria dizer. Em silêncio e exalando vergonha, eu abri a carteira, tirei o dinheiro e paguei o cavalo. O que mais eu poderia fazer?
            Bom, aquilo havia sido o suficiente. Eu precisava deitar um pouco. Sozinho, voltei caminhando pra casa.
            No começo foi apenas um ruído gorgolejante que subia pelo estômago. Depois, juntou-se a ele uma dor lancinante, que começou a descer até o cóccix. Depois passou a girar por dentro da minha barriga, parecendo ecoar por todos os órgãos. Por fim a taça finalmente transbordou. Depois de coxinhas de beira de estrada, salgadinhos chulezentos, carne de porco, feijão gordo, refrigerante, sacolejos cavalares e caminhadas sob o sol, finalmente o que estava contido irrompeu com uma fúria avassaladora, uma força da natureza que não aceitava questionamentos ou reflexões.

            Do quarto para o banheiro e vice-versa foram quatro vezes em menos de 10 minutos. Minhas pernas estavam bambas. Após muitos vômitos e diarréias, a minha boca secou completamente. Entrei no carro, desesperado para comprar uma garrafa de água gelada. Encontrado o produto, de um só gole emborquei desesperadamente 500ml de água com gás. Prazer imediato. Satisfeito, caminhei aliviado até o carro. Antes de abrir a porta senti um intenso calafrio percorrer, centímetro por centímetro, todos os meus nove metros de intestino. Rapidamente entrei no carro e girei a chave, acelerando - já com o suor escorrendo pelo rosto – até a porta da casa, onde subi correndo os degraus da escada (para trás ficou o carro aberto, no meio da rua) e entrei no banheiro como um furacão. Ali se foi embora toda a água que eu havia bebido dois minutos atrás. Meu corpo ardia em febre. A situação era grave.
            Resumo da Ópera: fui a uma farmácia, onde tomei uma injeção e remédios para prender o intestino; pra casa, levei uma garrafa de soro fisiológico. E assim foi minha primeira noite de carnaval: com febre, dores e tomando uma colher de soro fisiológico a cada cinco minutos, a despeito da minha sede intensa. Naquela noite sonhei com melancia, gatorade e suco de laranja.
            No dia seguinte eu já estava bem melhor e decidi que era hora de retomar a rotina carnavalesca, ou seja, tomar todas e comer desregradamente. Assim foi o dia inteiro, e nada me aconteceu; meu intestino finalmente normalizou e voltou a segurar o cocô. O problema é que ele não só segurou, mas também travou, trancou: tardiamente eu descobri que o farmacêutico havia se equivocado na dose, e agora eu estava com o intestino totalmente preso. Ou seja, tudo o que eu comi e bebi naquele dia ia ficar dentro de mim por um bom tempo. Principalmente os gases. Então começou a minha segunda via crucis.
            Nunca tinha sentido dor como aquela. Os gases, sem saída, extrapolaram os limites do intestino e foram subindo até provocar pontadas lancinantes na minha cavidade torácica, que parecia prestes a explodir, forçando-me a andar completamente curvado para agüentar a dor. Rapidamente fui a uma outra farmácia, onde me recomendaram o Luftal. Do momento em que o ingeri até fazer o efeito desejado foram duas longas horas contorcendo-se de dor na cama. Acredito que nunca antes peidos e arrotos foram tão celebrados e recebidos com tantas glórias e aleluias.

            Estranhamente, tudo correu bem até o dia de ir embora. Saímos de Lambari no início da tarde e esperávamos chegar antes do anoitecer em Taubaté. No entanto, a noite já era presente e não havíamos sequer chegado à Via Dutra. Quando começamos a debater aquela situação, vimos um avião pousando bem ao nosso lado e só aí entendemos o que estava acontecendo: em algum momento erramos o caminho e seguimos pela Fernão Dias até São Paulo. O avião estava descendo no aeroporto de Guarulhos.
            Aquilo foi a cereja sobre o bolo, o que faltava para tornar completa a minha desastrosa experiência de carnaval.
            Mas tudo bem. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. Mesmo porque, dali a dois meses, eu iria conhecer a mulher da minha vida . . .
             

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Na estrada com Jack Kerouac (manuscrito original)

O célebre livro de Jack Kerouac foi escrito em 1951, em três semanas – regadas a muito café, contrariando o mito de que seu combustível havia sido a benzedrina, ou benny, como os mais íntimos a chamavam – em um grande rolo de folhas de papel vegetal coladas umas às outras, perfazendo um total de 37 metros de história. Idolatrado pelo pessoal da contracultura e pela juventude extraviada em geral, o livro passou por gerações, deixando sempre a sua marca, dentre elas a mais importante: influenciou diretamente na estética e no estilo de escrita da literatura contemporânea ocidental, apresentando uma prosa veloz e fluídica, da mente para o papel sem maiores reflexões, um passo evolutivo para uma real apropriação das novas idéias, sensações e pensamentos que surgiriam pelo mundo nos anos vindouros. Da maluquete hippie aos escritores contemporâneos, do punk aos movimentos de esquerda, dos universitários de todas as épocas aos aventureiros de plantão, o livro de Kerouac foi, desde sempre, um convite ousado a viver a vida à flor da pele, mochila nas costas e pouco dinheiro, o presente independente e totalmente desconectado do passado e do futuro. 


 Desse meio cultural por onde circulava Kerouac e sua turma nasceu o movimento beat, que procurava desconstruir toda aquela auto-imagem fantasiosa que os filhos do Tio Sam tinham de si mesmos e que havia sido o alicerce para a criação do famoso sonho americano: as casinhas charmosas, com suas cercas imaculadamente brancas e jardins impecáveis; as famílias perfeitas, com seus porta-retratos felizes e participações no coral dominical; os bairros residenciais, com suas calçadas arborizadas e vizinhos sempre fraternais. Como uma paleta anárquica, o movimento beat misturou com fúria todas as cores sombrias do establishment, criando perspectivas em aberto a serem preenchidas por uma nova maneira de viver e sentir a vida. Com On the Road Kerouac estabelece que é na estrada que se constrói essa nova obra: nada atrás de mim, tudo à minha frente, como sempre acontece na estrada, era o que ele dizia. E tudo isso ritmado pelos acordes do bee-bop, a trilha sonora das aventuras da geração beat.
Jack Kerouac não era, contrariamente às impressões que se possa ter, um cara de vanguarda, desgarrado dos arcaicos laços familiares, seguro de suas decisões e impulsivo por natureza. Freqüentes eram suas dúvidas quanto a estar fazendo a coisa certa e, durante a viagem, muitas vezes ele chegou a se perguntar o que estava fazendo a cinco mil km de casa. Portava-se na maioria das vezes de maneira tímida. Na verdade, Jack morava com a mãe, com quem ia sempre visitar a irmã e para quem sempre mandava dinheiro. Havia fortes laços familiares em alguns daquela turma, incluindo Kerouac, algo não muito esperado quando se tratava de pessoas que estavam sempre à revelia pelo mundo. Sua grande viagem rumo ao Oeste, assunto principal do livro, seria a primeira aventura de um americano cuja vida, até então, havia ficado restrita ao seu espaço natal.
Seus companheiros de viagem eram, como ele, párias de uma sociedade que teimava em domesticá-los, em meter-lhes grilhões; um grupo de ovelhas desgarradas, sem dinheiro e com destino incerto. Sem um objetivo claro, eles queriam simplesmente viajar, dedicar-se à sua arte, conhecer pessoas e se divertir. Trabalhar, apenas se necessário - o que quase sempre era. Pelas estradas eles se esbarravam, e era quando nascia uma espécie de fraternidade entre eles, que dividiam desde caronas até refeições, um maço de cigarros e até o amor da mesma mulher. Trabalhava-se durante o dia para ter o que comer à noite, e as direções na estrada eram tomadas de acordo com a necessidade do momento. Quando a situação apertava, então praticavam pequenos roubos, como comida, cigarros e gasolina. Abandonavam às vezes mulher e filhos, mas jamais se abandonavam.
Um dos companheiros de estrada de Kerouac merece uma menção especial: Neal Cassady. Segundo alguns, foi Neal foi quem realmente inspirou Kerouac a ultrapassar todos os sinais vermelhos, tanto dos comportamentos vigentes quanto da própria literatura. Alguns afirmam que, sem Neal, não haveria On the Road. Ele personificava um tipo de liberdade que era embriagante e avassaladora, o Graal pelo qual buscava Kerouac naqueles dias. Dono de frases ininteligíveis cujo sentido só ele percebia, Neal era hiperativo e misturava diversos assuntos – muitas vezes completamente desconectados entre si – na mesma conversa; quando falava era aos borbotões, muitas idéias em uma única e alucinada seqüência, sem vírgulas, pausas ou reticências. Foi ele quem empurrou Kerouac definitivamente em direção à vida nas estradas.

terça-feira, 29 de maio de 2012

BOUAZIZI

Mohamed Bouazizi é um nome que não desperta a reverência que deveria. Esquecido, ou desconhecido, pela massa mundial, esse jovem de 26 anos mudou o rumo da história, ascendendo a uma esfera onde pouquíssimos exemplares da espécie humana conseguiram chegar. Bouazizi não foi político, artista consagrado, esportista vitorioso ou cientista. Tampouco liderou passeatas ou comícios. Mas iluminou a vida de milhões de pessoas com a luz das chamas que consumiram o seu próprio corpo. Em dezembro de 2010, Bouazizi ateou fogo em si mesmo, e a Tunísia despertou de um regime ditatorial que já durava 23 longos anos. Em pouco tempo aquela nova ordem se alastrou pela África e Oriente Médio. Foi o início da Primavera Árabe.

            Bouazizi era o típico cidadão invisível desse nosso mundo contemporâneo: muito pobre - trabalhava desde os dez anos para sustentar a mãe doente e a irmã – sobrevivendo nos subterrâneos da pirâmide social, sem qualquer representatividade na estrutura política e econômica de seu país, e tudo isso agravado pela ditadura vigente na Tunísia. Nunca tendo conseguido qualquer emprego formal, Bouazizi vendia frutas e verduras pelas ruas de Ben Arous. Durante todos esses anos ele sofreu constante assédio da polícia local, que confiscava suas mercadorias, o agredia e tentava extorquir-lhe dinheiro. Até que finalmente uma policial confiscou seu carrinho de frutas e o proibiu de trabalhar, não sem antes dar um tapa em seu rosto e cuspir nele. Desesperado, ele então procurou pelo governo regional para resolver a sua situação, mas recebeu um não como resposta. Sem ter mais a quem recorrer, ele tomou a decisão que, sem que soubesse, mudaria de maneira radical e inédita o quadro político e social do mundo árabe: em frente ao prédio do governo local, encharcou seu corpo com diluente e ateou fogo. Vinte dias depois ele morria em um hospital perto de Túnis.
            Bouazizi, que só queria ser respeitado como trabalhador, deixou uma mensagem para sua mãe, pedindo perdão por ter perdido a esperança em tudo. Fico pensando: que estado de desesperança poderia levar uma pessoa a provocar em si mesma uma morte tão horrenda?
            Imaginar, e entender, o desespero de Bouazizi, significa projetar-se por toda a sua trajetória de vida e acompanhar a pequenez e fragilidade do homem comum diante da brutal e fria arquitetura dos poderes instituídos, bem como sua total impotência frente às decisões arbitrárias de líderes tão isolados em suas cabines de comando, tão distantes da realidade das ruas, que jamais deveriam ter o poder para defini-la. Bouazizi perdeu as esperanças porque não via futuro diferente do que havia sido sua vida até aquele momento: injustiças, sofrimento e humilhação. 
             Como uma espécie de divindade, os governos mundiais (e não somente as ditaduras) põem-se longe e acima das vistas da população, agem sem dar justificativas (ou as dão como distorções da verdade), determinam destinos com assinaturas velozes e gestos grandiloqüentes, tornam-se inacessíveis para tornarem-se inquestionáveis, e, como o mágico de Oz, criam ao seu redor uma fantasia de poder ilimitado para desestimular qualquer tentativa de aproximação e conhecimento da verdade. Interesses econômicos ou políticos geralmente são o motivo principal – e jamais assumido – para que as máquinas governamentais desprezem os direitos básicos de sua população, punindo ou excluindo qualquer um que ouse se meter nos negócios administrados pelos senhores do mundo.

Bouazizi perpetrou sua auto-imolação em praça pública porque sabia ser esse seu único e último grito por justiça, tão alto que finalmente seria ouvido além dos intransponíveis muros que separam os governados de seus governantes. Ao dar esse grito de dor e revolta, Bouazizi deixou de ser invisível e passou a existir, a ser alguém, ainda que tivesse pagado com a própria vida para que isso acontecesse.
Dias depois o ditador Ben Ali o visitou no hospital. Preocupado com as constantes manifestações da população após o caso, ele tentou adotar medidas emergenciais para amenizar os altos índices de desemprego e diminuir a insatisfação geral. Mas o povo da Tunísia já havia tomado a sua decisão, e, dois meses depois, após muitos conflitos violentos, Ben Ali finalmente foi obrigado a renunciar e fugir para a Arábia Saudita. Em pouco tempo as populações de outros países árabes começaram a seguir o exemplo tunisiano.
Vítimas de governos que precarizam a condição humana não são exclusividade do mundo árabe. Em nosso próprio país vai aos milhares o número de casos de injustiça, desrespeito, abuso de poder, retaliação e perseguição perpetrados contra a população, principalmente os mais pobres, sem qualquer resposta positiva por parte do governo ou da própria sociedade, que apenas se mostra indignada diante das notícias. Muitos são os que, em nosso país, possuem tantos motivos quanto Bouazizi para gritar sua revolta e sofrimento a plenos pulmões.
Semana passada, conheci o caso de uma trabalhadora de uma grande empresa multinacional aqui no Brasil, que, apesar de seriamente doente devido à exposição a agentes nocivos no seu ambiente de trabalho, foi demitida sem qualquer direito à defesa. Como forma de protesto, acampou em frente à empresa, acorrentando-se ao portão. Mesmo assim a injustiça ainda continua.
Qual será o próximo passo a ser dado por ela?
Atear fogo ao próprio corpo?

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Dependência Química - Conto


Em uma de suas mãos ele segurava uma flor. Com a outra, vagarosamente, ele tirava a penúltima pétala, deixando-a cair no chão junto às outras
João era passional ao extremo. Entrava fundo em qualquer relação, destilava paixão pelos poros. Ficava incompleto quando não se sentia apaixonado, sentia falta mesmo da dor da paixão. Era seu vício, quando produzia sua substância mais quintessenciada. Quando estava apaixonado, enxergava o mundo com uma leve sombra vermelho-fogo; era essa a cor que lhe invadia a mente, em abundantes interações sinestésicas.  As paixões sempre o consumiam, em um êxtase desavergonhado.

O fim de um relacionamento, para ele, não era o fim; era, sim, o começo de uma nova corrente de sentimentos. Não ser correspondido o fazia sofrer, mas também o deixava encantado. Era quando ele escrevia poemas, interiorizava profundamente cada pingo de sentimento, se esmerava em compor canções. Sentir-se abandonado era sentir-se vivo. Chegava mesmo a desejar que o abandonassem, só para poder se entregar a tais sentimentos, para ele tão nobres.
Mas nem só de paixões clássicas ele vivia. Gostava de variações sobre esse tema. Por exemplo, em duas ocasiões ele resolveu se apaixonar por duas mulheres ao mesmo tempo. Ingenuamente, pensou que talvez não tivesse espaço no coração para duas paixões, ao que se verificou o contrário, talvez tivesse para três. Comedido como era contentou-se com duas, duas vezes: uma vez deixando que soubessem uma da outra e outra não. Isso porque quando sabiam, terminavam o relacionamento com raiva e rancor, e ele gostava daquela variação, de sentir a dor da paixão como um canalha.
Mas, ás vezes, era ele quem punha fim ao romance, intencionalmente, criando condições para o surgimento daquele estado de espírito que ele tanto desejava. Quando isso acontecia, as qualidades da mulher por ele abandonada, agora fora de seu alcance, de uma hora pra outra eram abrilhantadas por uma luz que quase o cegava, o que transformava sua ausência em algo ainda mais sentido, entranhado, digno de uma contemplação ardente.

            Mas quando o romance era terminado pela mulher, ah, aí sim, era quando ele sofria de verdade! O coração não parava quieto, e ele olhava repetidamente para todas as fotos com a mulher amada, lembrando com intensidade de cada bom momento. Havia uma mistura estranha de tristeza, pelo término não desejado do romance, e alegria, por antever o longo caminho da paixão não correspondida que havia à sua frente. E por esse caminho ele trilharia, se fartando da dor da paixão. Nem ele entendia bem esse estado de coisas, mas aquilo, de alguma maneira, o alimentava, deixava-o mais vivo.
            Agora, ele olhava para a última pétala antes dela se depositar no chão com as outras.
- Bem me quer! – disse ele
            E lá ia ele mais uma vez, se apaixonar de novo . . .

O genro e a sogra - Conto


- Futebol??Mas agora? E a minha novela???
Foi uma pergunta. Na verdade uma afirmação imperativa fantasiada de pergunta. Afirmava que a novela seria assistida, e o outro programa não seria mais uma opção. Quem a conhecia sabia muito bem disso.
            O controle remoto foi devidamente passado da mão dele para a mão dela. A mão que passou fechou-se com força depois, mas nada fez. Apenas extravasou sua raiva magoando sua palma com as próprias unhas, uma autoflagelação para evitar o desejo de socar a cara da velha. A mão que recebeu tratou logo de digitar o canal desejado. Quem passou o controle deixou a sala sem dizer nada. Quem recebeu sorriu e se refestelou no sofá encardido. Não havia outra televisão na casa.
            Cinqüenta e seis anos ele tinha. Estava na sua casa. A TV era sua. Nada justificava ele ter que abdicar de seu jogo em prol daquela novela. Mas havia outra história a ser contada.
            Entre os dois, a situação nunca foi muito boa, e tornou-se pior ainda depois que ela ficou viúva e foi morar com eles por um tempo, exigência da filha. Sem ser de mansinho ela chegou e foi ficando, a crise econômica mundial servindo-lhe de pretexto para que não saísse nunca dali. De tendência espaçosa e expansiva, a velha conquistou na marra o seu espaço e mais um pouco, sempre abusando do tempo gasto no chuveiro, das longas conversas com as amigas ao telefone, e das guloseimas alheias surrupiadas na geladeira. De seu lado, o genro ainda tentava manter sua posse sobre a TV e, quando era rápido o suficiente, sobre a geladeira. Mas cada vez ia perdendo mais espaço. E em meio a essa guerra, sua heróica mulher tentava manter o equilíbrio.
            Assim foi até que um dia ele engasgou-se com um pedaço de carne na hora do almoço. Já roxo, jogou-se no chão onde passou a revirar-se de desespero enquanto tentava expelir o naco. Em seus programas de televisão vespertinos, ela havia aprendido como lidar com situações como aquela; prontamente virou-o de barriga para baixo e, sem perder tempo, sentou com toda a força em suas costas. O naco saiu voando e duas costelas foram quebradas. Mas ele saiu vivo, e agora sabia que devia sua vida a ela.
            Depois disso, a bandeira dela foi fincada no chão da casa e, como a Excalibur, não havia quem a tirasse. Alçada ao posto de rainha-mãe, logo tratou de expandir ainda mais os seus domínios. A TV agora era sua, e a escolha do cheiro do desifetante do banheiro também. Nem a filha escapava de seu totalitarismo.
Depois de ter passado o controle remoto, derrotado em seus próprios domínios, ele se retirou em silêncio para o quarto, onde seus pequenos livros de faroeste o aguardavam, substituindo grosseiramente seu adorado futebol. Como que para irritá-lo ainda mais, a velha aumentou o som da TV, e agora, em sua mente, os gritos de ataque dos índios se misturavam ao choro da protagonista do drama folhetinesco.
Na sala, a velha se deliciava com mais uma vitória. Não tinha intenções de parar com aquilo, que muito a divertia. E ela gargalhava como uma bruxa quando sentiu uma dor no peito, o que a silenciou repentinamente. Uma segunda pontada, agora mais forte, derrubou-a do sofá. Com a força que lhe restava gritou, tentando atrair a atenção do genro, mas o som da TV estava alto demais. Derrubou intencionalmente o vaso da mesa de centro, que estilhaçou no chão, mas a trilha sonora da novela entrou retumbante e abafou o barulho que fez. Uma última pontada a fez contrair todos os seus músculos, em um último movimento de agonia, e então ela silenciou-se para sempre.
Em seu quarto, o genro virava mais uma folha de seu pequeno livro, sonhando com o dia em que tudo aquilo acabaria e ele teria sua vida de volta.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A ESTRADA DA NOITE

 Semana passada terminei de ler “A estrada da noite”, romance de horror escrito por Joel Hill, um novo escritor recém-descoberto e recém-reconhecido pelo público e crítica. Mas esse Joe Hill não é um cara totalmente desconhecido, pelo menos não se você souber seu sobrenome: King. Sim, o cara é filho do Stephen King, consagrado autor de livros como O Iluminado, Carrie – A Estranha, Cemitério Maldito, Louca Obsessão e muitos outros. O nome de Joe foi dado pelo pai em homenagem ao anarcossindicalista sueco Joseph Hillström, executado por assassinato após um julgamento controverso. Como blog também é entretenimento, nessas buscas pelo Google encontrei ainda outro Joe Hill, um artista desses que pintam inacreditáveis quadros em 3D nas ruas. Vale à pena dar uma olhada no trabalho do cara: http://joehill-art.com/page4.html.
Bom, voltando ao assunto, o nosso Joe Hill fez questão de não estabelecer qualquer ligação com o trabalho do pai, por isso não assumiu o nome. Segundo ele, era a única maneira de saber se seus livros eram realmente bons, já que a maioria das editoras hoje em dia não tem pudores em explorar parentescos para aumentar as vendas. Durante quase dez anos nem mesmo seus agentes sabiam que ele era filho de Stephen King. E ele conseguiu algum sucesso com seus dois primeiros livros (dentre eles “A estrada da noite”) quando então foi descoberta sua ascendência e ele teve que abrir o jogo. Mas ele já havia provado a si mesmo seu valor, ainda que, até hoje, nas contracapas e capas internas de seus livros, continue sem haver qualquer referência ao pai ou sua obra. Joe já ganhou alguns prêmios, incluindo o Bram Stoker, o mais importante da literatura de horror. 

A história de “A estrada da noite” é, em essência, um jogo de perseguição. Um roqueiro famoso chamado Judas Coyne, cinqüentão e já aposentado dos palcos, tem o hobby de colecionar objetos um tanto quanto macabros, como a confissão de uma bruxa que foi queimada viva na idade média, um livro de receitas para canibais, um laço usado em um enforcamento e uma fita de vídeo com um filme snuff (que mostra cenas reais de assassinato e tortura, realizadas intencionalmente para exploração financeira e direcionadas a uma elite anônima através de redes de distribuição secretas. Muitas pessoas acham que se trata apenas de uma lenda urbana, apesar de existirem muitas histórias sobre esse tipo de filme, que seriam vendidos por cifras astronômicas. Alguns filmes comerciais têm como tema a existência dos snuff movies, como 8 Milímetros, Videodrome, Morte ao Vivo e, mais recentemente, Temos Vagas).
E querendo aumentar ainda mais sua coleção, Judas Coyne não resiste a um leilão na internet e compra o paletó de um morto que, segundo o vendedor, era assombrado pelo fantasma do antigo dono. O que ele não sabia era que a aparição daquele fantasma, uma presença sombria e maligna, tinha relação com a história de sua vida, com decisões que ele havia tomado, e que agora fazia parte de um plano para puni-lo. Sem outra saída, ele foge com sua jovem namorada gótica pelas estradas americanas, com o fantasma sempre em seu encalço, buscando por respostas para salvar a si mesmo de uma condenação que ele não entendia. Junto, também levava seus dois cachorros, já que os animais possuíam uma espécie de alma selvagem, que era a projeção de seu próprio corpo sob a forma de uma sombra negra que conseguia agredir o espírito perseguidor.
O ritmo da história é intenso, e a leitura flui facilmente. Há bastante referências culturais, principalmente a bandas de rock dos anos 70, 80 e 90, com as quais o protagonista havia tocado e se envolvido em diversas turnês. Há também boas pitadas de humor sarcástico. O terror fica por conta das peripécias macabras do espírito maligno, que em vida havia se envolvido em cruéis experiências militares com hipnose; daí vem seu poder, o de manipular a mente das pessoas, levando-as à loucura, a cometer crimes ou mesmo suicídio. Suas aparições também são sempre inesperadas e insuspeitas, quando então o escritor explora bem o contraste entre a sua presença silenciosa e letal e o ambiente de pura normalidade que quase sempre o cerca.
“A estrada da noite” é aquele tipo de história que atinge algum canto esquisito da alma, que por sua vez reconhece o estranho, o bizarro ali contido, e, de uma maneira toda cúmplice, abraça-o.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Supermercado: a missão

Ah!! Os supermercados!!!! Representantes passivos da modernidade inquieta, marcam presença em nosso cotidiano com seus corredores atulhados de produtos dos mais variados tipos, das mais variadas marcas, nas mais variadas cores. Corredores atulhados de pessoas dos mais variados tipos, buscando pelas mais variadas marcas, portando humores nas mais variadas cores. Um lugar por onde desfilam carrinhos transbordantes, quase sempre apressados, guiados com arrojo por humanos atentos ao mesmo tempo ao caminho e ao conteúdo das prateleiras. Local privado onde se reúnem todas as raças e credos, a pluralidade humana homogeneizada em um único desejo/necessidade: consumir.
Quase sempre muvucados, os supermercados trazem dentro de seus limites um retrato fiel do mundo contemporâneo que nos rodeia: filas, pressa, promoções, ofertas, encontros, desencontros, conversas rápidas e muita paciência. Á fórceps, abrimos espaços em nosso precioso e escasso tempo para estarmos lá, abastecendo-nos de necessidades e frivolidades. Sobre o tempo, podemos dizer que, nos supermercados, ele se comporta de maneira estranha, acelerando-se proporcionalmente à pressa que se tem.

Dia desses, eu, vendo a geladeira e o armário vazios, conclui que era a hora. Tinha de ir ao supermercado. Na manga, um pequeno truque: eu comprava em um supermercado que ainda não tinha sido descoberto pela massa urbana, e que possuía variedade e bons produtos. Ou seja, um bom supermercado que se mantinha quase sempre vazio. Não acredita que isso exista? Mas existia (pelo tempo verbal vocês já podem perceber que o esquema gorou). Desse supermercado eu não falava com ninguém, mantinha-o sob segredo de estado. Deixava os troux . . . que dizer, as pessoas, continuarem indo a um outro que havia por perto, bem maior e mais vistoso.
Bom, então eu entrei no carro e saí de casa rumo ao supermercado, feliz em ser detentor daquele segredo sagrado. Já me imaginava, carrinho cheio de produtos, caminhando imponentemente por um tapete vermelho, sem ninguém à frente, até o caixa, que me receberia com um sorriso cordial. Assobiando, eu entrei no estacionamento.
Parei abruptamente. O assobio foi morrendo em um decrescente cômico.
O estacionamento estava completamente lotado.
(Pausa longa)
Puta que o pariu!! Quem era todo aquele povo no MEU supermercado?! Desci do carro e fui bufando até a porta de entrada. Carrinhos, aos milhares (por favor, respeitem meu drama!), digladiavam-se pelos corredores, confundindo-se e misturando-se aos que já aguardavam nas filas de proporções quilométricas dos caixas. Quem havia sido o X-9 filho da puta que havia dado a letra do canal pra aquele povo todo? Por um tempo eu fiquei em pé, parado, só acompanhando com os olhos o entrar e sair da multidão. Pensei em subir em um balcão e, em alto e bom tom, organizar melhor aquela bagunça. Primeiro passo: dividir quem viria na segunda-feira, quem viria na terça, na quarta, e assim por diante, dividindo os horários para cada dia, evitando assim aquela aglomeração absurda. Segundo passo: ignorar a reclamação daqueles que diziam não poder vir no horário determinado. Terceiro passo: expulsar os reclamantes do supermercado. Quarto passo: confraternizar com o pessoal gente boa que ficasse.
Caindo na real e derrotado, sem vontade para encarar a situação, caminhei lentamente até o meu carro. Antes de sair, dei uma última olhada para trás. Era hora de seguir em frente, em busca de um novo supermercado.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

É nóis em Itacaré e Barra Grande

           Minha jornada começou no dia 02/03, quando saí da minha casa, as 5h30 da matina (carona até São José e depois ônibus até Cumbica). Cheguei em Ilhéus às duas da tarde: a idéia era pegar um táxi até a rodoviária e depois um ônibus tipo “cata-jeca” (que vai parando pra pegar gente pelo caminho) até Itacaré. Mas, ainda no aeroporto, ao meu lado, duas pessoas conversavam sobre Itacaré. Não perdi tempo e perguntei se elas não queriam rachar um táxi, direto do aeroporto até lá. Surgiu uma 3ª pessoa. Negociamos o preço com um taxista. Chegamos em Itacaré duas horas antes e praticamente pelo mesmo preço, fora o conforto. Fica a dica: mochileiro que não abre a boca corre o risco de perder boas oportunidades.
Achei logo uma pousada, no fim da Rua Pituba (Pousada Itaoca, R$ 40,00 a diária, com café, suíte com ar condicionado e frigobar). A Pousada Itaoca fica em frente à rua que dá acesso para a praia da Concha, e foi pra lá que eu fui depois de deixar as coisas no quarto. Cheguei a tempo de ver o sol se pôr atrás da cidade de Itacaré, brilhando na água do mar, criando um contraste deslumbrante. Muitas outras pessoas também estavam no lugar, conhecido como Ponta do Xaréu, e esse é o programa de fim de tarde preferido pelo pessoal da cidade. Depois do espetáculo, eu entrei na água, uma piscina de água morna e cristalina, e ali fiquei até o dia escurecer completamente. Aliás, anoitecer nas praias foi uma constante durante toda a minha viagem.
O pôr do sol em Itacaré
 No outro dia, decidi que iria pegar o ônibus na rodoviária e descer em frente à trilha para a praia de Jeribucaçu. Acabei saindo meio tarde da pousada e no meio do caminho mudei de idéia: peguei uma moto-táxi e combinei com o cara R$ 30,00 pra ele me levar até a entrada da trilha e depois buscar. Bem mais caro do que ir de ônibus, mas mais rápido e sem depender de horários. Mais uns 30 minutos de caminhada e eu já estava na praia.
Jeribucaçu é muito bonita. Pequena, rodeada de mata atlântica, possui uma parte mais afastada da areia, onde coqueiros enormes fazem sombra sobre uma área de grama rente ao chão, lugar ideal para esticar uma esteira e esquecer o mundo. O riozinho que deságua no mar é uma atração à parte, dá pra perder a conta do tempo boiando nas suas águas tranqüilas e transparentes. Só que dentro do mar as águas não estavam tão tranqüilas, e havia correnteza. É quando então surge a figura do Tiririca, dono de uma barraquinha onde se pode comprar deliciosas tapiocas e o “salva-vidas” da praia. Foram dele os assovios que eu ouvi e, a princípio, ignorei. Mas quando resolvi olhar pra trás, vi que o negócio era comigo: eu tinha me aproximado das pedras e nem havia percebido. Ele, sempre atento, foi me avisar, entrando na água e me explicando a situação. Mas o lugar dava pé e eu estava seguro, tanto que pensei em replicar. Mas daí eu percebi que estava prestes a representar justamente um papel que trazia tanta dificuldade ao meu trabalho como técnico de segurança: o daquele que se nega a compreender os riscos e agir preventivamente, gastando energia com argumentos tendenciosos para tentar justificar sua postura arriscada e irresponsável. Então, em silêncio, abaixei a cabeça, agradeci ao cara e me dirigi para o lado da praia onde ele havia me orientado a ir.
Jeribucaçu
Jeribucaçu










No outro dia, fui fazer a trilha das 4 praias. De novo de moto-táxi, cheguei à entrada da trilha e caminhei até a primeira delas, Engenhoca, onde, com um boné, dá pra tirar o sal do corpo com a água cristalina de um riacho que deságua lá. Um refrescante banho de boné. Depois segui até Hawaizinho, Gamboa, até chegar a Itacarezinho (que de inho não tem nada), onde fiquei até a hora de ir embora. Itacarezinho é fenomenal, estende-se a perder de vista, até uma área mais selvagem e deserta. No entanto, as pessoas permanecem apenas em uma de suas extremidades, onde existe um barzinho chiquetoso que cobra cem pila (consumação) pra usar as espreguiçadeiras cobertas que eles disponibilizam. Optei por continuar quietinho na minha sombra de coqueiro. Bem ao meu lado, um cano amarrado a uma árvore vertia continuamente a água doce captada de um pequeno riacho. Perfeito!
Itacarezinho
 Bom, esse foi meu último dia em Itacaré, onde conheci praias de águas cristalinas, quase mornas, de tons de verde e azul que enchem os olhos. O nativo de Itacaré é gente boa e atencioso. Gringo há aos montes, principalmente israelenses. Há até cardápios, cartazes e luminosos no idioma deles. Não consegui descobrir o porquê.
No dia seguinte eu fui para Barra Grande, na Península de Maraú, a última parte da minha viagem. Reservei cinco dias pra ficar lá, ao invés do passeio de um dia geralmente feito por quem está em Itacaré. Foi a melhor decisão que tomei. Barra Grande foi o ponto alto da viagem.
Peguei um ônibus de Itacaré até Camamu, de onde fui de lancha rápida (25 min) até Barra Grande. Chegando lá, fui direto para a pousada Galeão Santanna, que havia me passado um preço de diária tão inacreditável (R$45,00) que eu levei o email como prova para o caso de virem com outra conversa. No caminho fui me deslumbrando com a paisagem verde do vilarejo, rodeado por uma grande área de mata atlântica. Muitas árvores nas ruas, praças, casas. Os bares, restaurantes e pousadas também cultivam muitas plantas, alguns até de maneira ornamental. A palavra certa para o vilarejo seria “bucólico”.
 
Bom, a pousada era excelente. Nova, confortável, com jardins e árvores, gazebo para leitura, uma sala de estar praiana. Incluso ainda um café da manhã digno de nota: cuzcuz de tapioca, bolinho de chuva de tapioca, farofa doce de coco ralado com inhame, pastelzinho de siri, bolos cremosos, ovos mexidos, bacon, salada de frutas, sucos regionais, etc. Comi pra caralho!!!
Em Barra Grande, a praia de “centro”, onde fica o cais (que na maioria das cidades praianas é suja e contaminada) é de águas verde-esmeralda e cristalinas. Andando por essa praia você chega à Ponta do Mutá, onde se aprecia o pôr-do-sol de dentro das águas mornas e tranqüilas. Todos os dias eu ia lá para ver o sol se pôr, pra depois ver surgir as primeiras estrelas e a lua, contra o céu ainda azul.






Fiz também o passeio das 4 ilhas. Se a pessoa não tiver muito tempo pra ficar em BG é melhor não fazer. São dois lugares para tomar banho, uma ilha só pra visita e outra para almoçar. No melhor lugar você fica pouco mais do que meia hora. Sei lá, achei dispensável.
Mas o melhor dia foi, sem dúvida, quando eu aluguei um quadriciclo e cobri 40 km de praias. Antes de qualquer coisa, aí vai uma informação importante: quadriciclo é perigoso pra caramba. Tem grande potência e as manobras não são tão fáceis como em uma moto; aprende fácil, mas tratá-lo como um brinquedo pode trazer sérias conseqüências. Com o desenrolar do relato vocês vão entender o porquê.
Praia do Cassange
 A princípio, íamos apenas eu, a Ana e a Karina, que também estavam na pousada. Acabou que saímos em três quadriciclos: eu fui sozinho no meu, no outro foi um cara recém-chegado levando a Ana e no terceiro ia um guia levando a Karina. Não havia necessidade de guia, mas as meninas não haviam se dado muito bem com o quadriciclo e preferiram contratar um.
Eu saí mais cedo, porque queria fazer o mergulho nas piscinas naturais em Taipu de Fora; a melhor condição é na maré baixa, que tem hora para começar e terminar. Nas piscinas, me distanciei dos locais onde havia mais pessoas e fui presenteado com uma experiência ímpar: fui envolvido por um cardume enorme, peixe pra tudo quanto é lado, a perder de vista. Fiquei uns 10 minutos “viajando” ali, mergulhando no meio do cardume e vendo como ele se abria e se recompunha com tamanha rapidez e precisão. Depois me encontrei com o pessoal e seguimos para a próxima parada: Praia e Lagoa do Cassange. Ir com o guia foi essencial nessa parte, porque seguimos por uma trilha off-road pelo meio da mata atlântica, e não pela estrada principal, o que foi bem mais legal.
Piscinas de Taipu de Fora

Taipu de Fora
Separadas por uma faixa de terra de, no máximo, 150 metros, a Praia e a Lagoa do Cassange formam um conjunto paisagístico espetacular. No ponto mais alto dessa faixa de terra, toda ela cheia de enormes coqueiros, você olha para um lado e avista uma lagoa enorme formada pela água da chuva, daí você olha para o outro lado e vê a praia. Bom lugar para fazer um 360º com a filmadora. Só não foi perfeito porque o cara que dirigia o quadriciclo com a Ana bateu no meu, que estava parado, por andar muito colado e frear em cima. Mas isso foi apenas um pequeno susto, comparado ao que estava por vir.
Seguimos para a praia de Algodões, pela estrada de terra, e já no início o cara me ultrapassou acelerando bastante. Acabou que, em um “retão”, ele perdeu o controle e saiu pela margem da estrada, entrando no meio do mato (uns 0,5m de desnível) a uns 40 km/h. Literalmente voaram. Tivemos que levantar o quadriciclo para retirar a Ana debaixo. Daí o cara começou a sentir uma dor intensa na coluna. Deitamos ele na estrada. Por sorte havia médico e enfermeira de plantão na região, e uma ambulância também. Ele foi levado até Ilhéus para radiografia, mas não deu nada, ainda bem!!
Bom, situação resolvida, resolvi continuar a viagem até a última praia, a de Algodões. Lá, encontrei um maluco que havia saído 07h00 de Itacaré, caminhando, durante o dia, por 30 km de praias seqüenciais até chegar a Algodões, onde ele ia dormir, para no outro dia completar os 15 km que faltavam para chegar até Barra Grande. Pelo que eu conversei com ele, tem muita gente que faz isso.
Bom, é isso aí! Essa foi a minha viagem pelo sul da Bahia.